7 poemas de Christophe Tarkos (1963—2004), por Tina Zani

Tenho trabalhado na tradução de poemas do poeta contemporâneo francês Christophe Tarkos há um ano. Hoje, a revista literária escamandro publicou uma amostra do meu trabalho. Este fragmento faz parte de um projeto maior, que abrange a tradução completa do livro Caisses (P.O.L., 1998), ainda sem publicação no Brasil.

Com vocês, Christophe Tarkos – por meus olhos 😃

escamandro

Christophe Tarkos escrevia principalmente em prosa e tinha forte ligação com a performance e a oralidade. Costumava declamar seus poemas sincronizando corpo, voz, expressão e gesto, como se o próprio texto se corporificasse. Os poemas, em sua forma escrita, seguem os princípios dessa poética: concretizam-se performaticamente na diagramação, na pontuação, na mancha que formam sobre o papel e nas escolhas gráficas, por exemplo. Como se o corpo do poeta se imprimisse e pudesse ser, a posteriori, experimentado pelo leitor.
Movida pelo interesse na investigação das relações entre o corpo e o texto, encontrei, na poesia de Tarkos, características que o distinguem no panorama da poesia francesa contemporânea. Uma dessas características é a repetição, dispositivo poético que, além de acercar o texto de cadência, ritmo e fluxo, gera um meio – uma materialização da substância textual. Essa substância, devido ao tratamento formal que lhe dá Tarkos, toma o espaço e…

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eu não sou assim

a raiva é sobre si a raiva que se projeta fora
é sobre si
a raiva que (pensa que) sente do outro é a
raiva que tem de si
mesmo
essa raiva que parece lá fora não
é raiva de ninguém
só é o reflexo que
consegue ver da raiva que
sente de si
raiva de querer – querer ser – o que
não é de
achar que ser o que não
é é mais
legal que ser o que
é de
achar que ser o que os
outros são é
mais interessante dá mais
quórum faz
mais fãs deixa
menos só
traz mais
importância
é melhor.

às vezes fica tudo muito claro

entra,
repara bem os espaços, os vãos, as janelas que são portas. a sala é escura, mas tem uma
claraboia em triângulo perto do telhado. é uma casa viva, que se expande como pulmões se
cheia de ar.
quando a casa é grande, o corpo se alarga.

há elásticos por toda parte, do solo ao teto e às paredes, nos rodapés que não existem e nas
rachaduras principalmente – são muitas, emendadas com massa corrida e tinta fresca. é a
casa. é grande e pode se expandir.

o corpo que a habita está contido em suas entranhas. como um útero prestes a parir, ele
lateja, dilata, dói, contrai
e contrai e contrai e contrai. tem algo para expelir, acomodado tão profundamente na pelve a
ponto de causar cãibras e uma vontade constante de fazer xixi. o corpo está selado. há uma
substância pegajosa que o tampona. a bolsa quer se romper, quer derramar a água quente,
deixar escorrer pelas pernas, afogar o mundo e
por isso dói.

devia afrouxar a púbis devagarinho, afastar os ísquios, flexionar os joelhos
deixar tombar as coxas para fora,
mas o devagarinho é um espaço que demanda toda atenção para se cumprir.

o corpo está deitado na cama.
escreve com o p.c. apoiado numa almofada sobre o ventre.

paro um pouco para ler as páginas do caderno e, nessa pausa, o p.c. pulsa. vejo seu
movimento, miúdo, sutil, um bombear silencioso acima e abaixo.
me espanto:
é o pulsar do ventre que move o p.c..

era uma vez, uma pera.

penso no meu útero
quando olho a única pera guardada entre as maçãs na gaveta da geladeira
(que não limpo há seis meses)

o útero
é um órgão do aparelho reprodutor das
fêmeas de quase todos os
mamíferos, inclusive os humanos. é um espaço
de energia yin, uma
cavidade oca no corpo, uma
pera invertida que tem o tamanho de um punho fechado,
escuro e morno.

outro dia
fiz uma TMC – minha mãe falou pra eu não
tomar o contraste mas
eu tomei.
ouvi o líquido entrando no corpo pela veia do
braço direito passando perto
do ouvido direito e bem
no centro da testa do pescoço
até a púbis esquentar.
a máquina falava:
encha os pulmões de ar
segure
pode soltar.

a Adriana Lisboa tem um poema sobre a
vida íntima de uma
menina de dez anos na Somália é cortada costurada pra ser
cortada de novo.
a Adriana diz que a menina é cortada como se corta
uma fruta como se corta a aba de um envelope como o avião corta a nuvem como a nuvem corta o céu.
ela também diz que todo corte do mundo é o corte na menina de
dez anos na Somália.

a pera é uma fruta na gaveta da geladeira.
quando olho para a pera penso
no meu útero.
não vou cortá-la.
deixo que se abra sinceramente.

reverdecer

a dor acometeu a barriga. dor na barriga, bem no meio, na linha do umbigo, de atravessado, de um lado a outro, indo da direita para a esquerda e, depois, escorregada na direção do ventre. a barriga fala sozinha. conversa em voz alta numa língua estranha, não consigo entender. o direito fala, o esquerdo responde. fica assim, nessa toada o dia inteiro e nada acontece, nenhum silêncio, nenhuma conclusão. a conversa infinita e a dor atravessada. sutil e constante. desconfortável.

o corpo se deita. estica, espreguiça, descola a pele das costelas, escorrega os ossos sobre as costas, aproxima os ísquios, entorna a bacia e abre a virilha. colágeno. a ponta dos pés na parede, a ponta das mãos na janela e o esqueleto no meio, encompridando, descerra os vãos das emendas, as articulações, os poros. ouço o som dos tendões esticados como cordas de violão. eles tocam e a música sai pelos ouvidos, ecoa nos óculos de aro vermelho na frente dos olhos. a lente está suja, é difícil limpar a gordura que se acumula no vidro.

sexta-feira chorei de manhã, depois chorei à noite. a morte é um pensamento. interessante, faz a gente lembrar. traz o passado, aproxima o corpo do pó, desfoca a paisagem. o corpo responde.

não é preciso morrer para morrer.