Sobre o Amor e a Paciência

Reunir a família para um evento simples qualquer tem se tornado algo realmente raro ultimamente, conforme meus filhos crescem. Imagine, então, se o evento demandar um pouco mais de disponibilidade e organização.

Por isso, quando planejamos nossa última viagem em família, respirei fundo e me abasteci de muita paciência e amor pra lidar com a rebeldia que poderia surgir.

São quatro filhos, em idades que variam de 14 a 22 anos, e o destino era a Ilhabela (onde ‘não tem nada para fazer’, segundo eles).

A dificuldade já começa na organização do deslocamento até lá: embora o carro acomode 7 pessoas, é preciso levar uma bagagem reduzida e, como somos em 6, alguém tem que concordar em ir meio apertadinho na poltrona da terceira fileira. Confesso que, para minimizar o stress e garantir o melhor bom humor de todos, até achei que eu, que sou a menor da família, é que teria que me submeter ao assento do fundão. Para a minha alegria, no entanto, fui salva pela candidatura de um deles, que escolheu ir atrás espontaneamente (ufa!).

Tudo combinado, destino escolhido, data marcada, reservas feitas, todos avisados. Véspera de viagem e… opa, um deles achou que não íamos mais (como assim?). Combinou de dormir fora exatamente na noite que antecedia a nossa saída e fez outros planos para o dia seguinte.

Por que não iríamos mais? Respirei fundo e mantive a calma; mantive, também, o combinado: a viagem continuava de pé, com a participação de todos.

Ficou acertado que sim, ele dormiria fora, mas voltaria antes do almoço do dia seguinte para fazer malas e etc.

Dia seguinte, horário do almoço: nada. Nenhuma mensagem, nenhum aviso, nenhum sinal de fumaça.

Mandei um torpedo e…

_Tenho mesmo que ir?

_Sim.

E assim, nesse jogo torturante, as horas foram passando e o dia também; minha paciência, minha boa vontade e minha convicção de que a presença de todos era importante foi testada a cada hora, a cada minuto, a cada mensagem trocada, desde o domingo à noite até o momento em que efetivamente saímos, na segunda-feira às 18h30.

Ele tentava me convencer pelo cansaço e eu tentava me convencer a vencer o cansaço.

Mas… posso dizer uma coisa: cada segundo de dúvida e tortura valeu os 5 dias que passamos em família. Quando me lembro que quase me rendi e abri mão de um de nós, sorrio e agradeço a determinação que me fez continuar até o fim.

A viagem foi maravilhosa em todos os sentidos. Momentos impagáveis que palavra alguma conseguiria traduzir.

É claro que, se você perguntar o que eles acharam, provavelmente vai receber uma resposta atravessada, típica de quem não quer dar o braço a torcer. Afinal, viajar com pai, mãe e irmãos, de carro, para a praia não é para qualquer um, não é mesmo? Mas sou testemunha, pelos sorrisos que vi, pelas risadas que ouvi, pelo carinho mútuo que presenciei e pelas fotos que tenho, que, sim, valeu a pena para todo mundo e os laços que reforçamos naqueles dias juntos vão ficar para sempre em nossos corações.

Com essa minha experiência, e outras que tive ao longo de 22 anos de maternidade, reuni algumas dicas legais para o planejamento de viagens que envolvem levar filhos resistentes à mudança de ares:

Avise todos com antecedência:

Se você é como eu e mantém o costume de fazer ao menos 1 viagem em família por ano, só precisará combinar com antecipação a data e o destino; se você ainda não tem esse costume, recomendo enfaticamente que o inclua como prioridade. Esses momentos juntos servem para estreitar laços, aproximar irmãos, fortalecer relacionamentos, criar memórias, educar pelo exemplo e pela convivência. São momentos preciosos, inesquecíveis – ainda que imperfeitos. É uma boa ideia lembrá-los da data da viagem com frequência para evitar surpresas como a que eu tive.

Procure escolher um destino que interesse à maior parte dos filhos:

Nem sempre isso é possível. No meu caso, por exemplo, a Ilhabela era a nossa única opção (ai, que chato). No entanto, quanto mais legal for para eles, tanto mais gostoso será para todos. Como se trata de uma viagem em família, vale a pena abrir mão da sua preferência em nome da deles (só dessa vez).

Prepare-se para possíveis manifestações de rebeldia:

Sim, elas vão acontecer, mesmo que o evento, a data e o destino tenham sido acordados por todos antecipadamente. Resista. Respire. Prepare-se bem. Ocupe-se, enquanto rola o atraso proposital de um deles; responda às mesmas perguntas mil vezes como se estivessem sendo perguntadas pela primeira vez; mantenha a calma e o controle, ainda que seja extremamente difícil. Lembre-se: o resultado será favorável a quem tiver mais determinação.

Não espalhe a má notícia:

Quanto menos gente estiver envolvida no stress, mais rápido ele se resolverá. Resista à vontade de torná-lo público, contando ao cônjuge, a outros filhos ou outros membros da família expandida. Você até pode fazer isso depois que a situação já tiver sido resolvida. De preferência, depois que a viagem tiver sido um sucesso; mas jamais durante o incêndio, pois só colocaria mais lenha na fogueira.

E, o mais importante, siga a sua intuição e resista até o fim. 

O prêmio lhe será entregue na forma dos mais sinceros e calorosos sorrisos e lembranças.

Essas poucas e simples dicas podem te levar ao paraíso, mas também ao inferno se o rebelde em questão resolver estender a rebeldia e o mal humor para os dias que passarão juntos. Conhecer bem cada membro da sua família é muito importante e uma ótima maneira de se conseguir isso é através da convivência frequente, gostosa e pacífica. É preciso saber ouvir, saber estar junto, saber abraçar e respeitar as individualidades, desde o começo.

Construa para você uma família que tenha espaço para todos e os botões florescerão ao menor raio de sol.

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7 comentários sobre “Sobre o Amor e a Paciência

  1. Tininha — bom demais! E me lembra minha familia perfeitamente. 4 — dois meninos e duas meninas. Cada um com seu interessa! Eh SUPER dificil conseguir fazer algo todos juntos. Ate escolher um restaurante para jantarmos todos juntos. ADOREI! Adorei as dicas! E vou respirar com os sinais de rebeldia!

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  2. No meu caso, Tina, é mais fácil pois sou eu e dois filhos e, sim, acho que a gente tem que se reunir e estreitar os laços ainda mais quando a diferença entre os filhos é de quase 10 anos como é o caso aqui de casa. Torço imensamente e faço aquilo que posso pra que eles se juntem, se entendam, se respeitem e possam conviver. Acho de suma importância! Concordo com tudinho que escreveu e suas motivações!

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