o gato e o passarinho
Crédito da Foto: Tina Zani

 

 

O gato e o passarinho são bem diferentes.

 

Quando eu era mais nova, adolescente, cursando o colegial que hoje virou Ensino Médio, eu às vezes pensava que queria ser um passarinho pra poder voar livre, bem alto, lá no céu.

Ficava imaginando como seria não ter obstáculos pela frente e uma visão 360° do céu, do horizonte, do mundo, da Terra. Queria ficar envolta em azul profundo, de todos os lados de dentro, e de fora, e de cima, e de baixo. Enxergar as coisas com perspectiva, lá do alto, de longe e só ouvir o barulho do ar passando pelos meus ouvidos e o som da minha respiração no ritmo do coração.

Sentir as penas ao vento e nada mais debaixo de mim.

E, se eu fosse um passarinho cantador, pousaria num galho e abriria o bico num piu-piu-piu sem fim, mais encantador e emocionante do que o vozeirão do nosso querido finado e afinado Pavarotti. Ou, se eu fosse um gavião, gritaria forte e estridente em pleno voo, celebrando a vida, a morte, a caça, o voo, a liberdade, o sol, o infinito.

Abrir as asas, bater as asa, flutuar e ir…

Hoje, quando penso em algum animal que eu poderia ser, escolho o gato.

O gato é o sossego em pessoa. A boa vida, a calma, a sutileza, o caminhar cadenciado, macio, silencioso. O gato é manhoso, sabidinho e adora um carinho. Se esfrega, se embola, se enrola e mia. O gato entra e sai sem ser notado se não quiser. Passa o dia a dormir, ou a comer, ou a se espreguiçar, ou a se lamber, ou a contemplar a correria ao seu redor, sem nem se afetar.

O gato é… o gato.

E se um passarinho bobear, feliz e cantando, saltitando pelo chão à sua frente, ahhh… o gato pega.

Fico pensando que talvez eu hoje queira ser um gato porque me sinto muito passarinho lá no céu, alçando voos meio fora do mundo, cantando em dias de tempestade, fazendo ninhos em galhos de árvores, saltitando no chão na frente dos gatos.

De vez em quando levo uma patada, uma unhada, um bote que me despedaça.

E, aí, fico com vontade de ser gato.

Mas como ser gato se sou passarinho?

Compro uma fantasia? Amarro minhas asas e colo uns pelos macios e lustrosos por cima? Cerro meu bico, alongo meu rabo, arrumo mais duas patas pesadas e aprendo a me espreguiçar? Emudeço o meu canto, esqueço os meus voos, abandono o meu ninho?

Já tentei essas coisas, mas nunca consegui ser gato por muito tempo.

Quando abri a boca pra miar me deparei com meu bico, que nasceu de novo mais afiado. Os pelos macios e lustrosos não duraram muito e despencaram, pouco a pouco, deixando ver minhas penas longas e coloridas. Minhas asas coçaram, arderam, doeram e, enfim, se libertaram novamente e, pra surpresa de todos, eu cantei de novo.

De vez em quando eu me fantasio de gato outra vez. Ponho meu coração passarinho numa gaiola e vou miando por aí.

Mas ele sempre acha a saída, esse passarinho alegre, sapeca e tão querido.

Não tem jeito, quem nasceu passarinho não sabe miar direito.

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4 comentários sobre “O Gato E O Passarinho – Você Também Já Se Sentiu Assim?

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