Não Me Roube Esse Papel.

Ele é meu, é o que eu sei fazer melhor.

Eu não sei ter emprego fixo com hora pra entrar e sair. Mas sei sorrir.

Eu não sei ter chefe me cobrando e dando ordens o dia inteiro. Mas sei cantar.

Eu não sei ter um salário que pague as contas da casa ao final de todos os meses. Mas sei florir.

Eu não sei participar de reunião de negócios e usar tailleur e salto alto todo dia. Mas sei desenhar.

Eu não sei reclamar do Brasil, da vida, do mundo. Mas sei olhar.

Eu não sei ouvir notícia ruim, comentar tragédias humanas, acreditar que não tem mais jeito.

Não sei.

Mas sei silenciar. Sei ficar ao lado, ouvir, alegrar, apoiar. Sei segurar nas mãos, segurar a barra, assoprar, assobiar. Sei dar um empurrãozinho. Sei escrever, sei sonhar, sei acreditar.

Sei te ajudar a ver as belezas da vida, a olhar a lua, a sentir o mar, a areia morna, o perfume da primavera. Sei filosofar.

Ontem me deparei com essa tirinha do Calvin & Haroldo.

medo

E, antes que você me pergunte: sim, os pais consertam tudo. Desde pneu de bicicleta furado, pedal de bateria quebrado, estrado de cama estragado até lâmpada queimada, barata assustada e porta rangendo.

Mas as mães, ahhh as mães…

As mães consertam a alma machucada. O coração ferido, o corpo dolorido, o choro preso na garganta, a voz reprimida, os sonhos arranhados.

As mães consertam o vazio no peito, os amores perdidos, as dores da vida, a falta de abraço. Consertam resfriados, dores de barriga, falta de alegria, falta de apetite, falta de elogio.

As mães consertam quando sabem só de olhar, quando compreendem sem precisar explicar, quando acolhem, quando cuidam das feridas do ser.

Só que conserto de mãe não é evidente, nem aparente. Conserto de mãe é sutil e suave.

Tão sutil que às vezes não se dá o devido valor, como se já fizesse parte da gente.

Tão suave que parece que não existe. Como o ar, que a gente não vê, só sente.

E, no entanto, é vital.

Hoje descobri coisas sobre mim.

Descobri Que Tenho Um Medo.

Esse medo só acomete as mães. E nem todas. Talvez você me entenda, se for mãe. Ou talvez não entenda, mesmo sendo mãe.

Na verdade, isso não importa muito. Entendendo ou não, é verdade.

Eu o chamei de ‘medo de mãe que não sabe se o filho sabe o que ela conserta’.

Sofro desse medo, que também pode se chamar ‘medo de mãe que quer que o filho lembre com carinho’. Com saudade, com aquela sensação gostosa que dá no coração quando pensamos em alguém que gostamos, que admiramos, que nos faz bem.

Sofro do medo de mãe que gostaria de ser importante, tão importante quanto o pai que conserta a válvula da descarga. Entende?

Ao descobrir isso, descobri também que tenho andado no meio ponto, nem lá, nem cá. Estou no meio fio, em algum lugar perdido, entre o ser e o tentar ser outra coisa que não é. E aí, acabo que não sou.

Viver assim não é bom.

É como estar num eterno efeito sanfona – engorda, emagrece, engorda, emagrece, engorda, emagrece. Não dá pra viver assim, uma hora se é gordo, outra hora se é magro. Isso faz mal à saúde. E ao guarda-roupa.

Também faz mal à saúde uma hora ser e outra hora tentar ser o que não se é.

Algumas coisas precisam ser estáveis pra que outras possam mudar.

É preciso ser sempre o que se é de verdade, eu sei disso. Mas às vezes parece tão difícil, tão complicado.

Por exemplo, pegue todas as frases do começo desse texto e substitua os ‘não sei’ por ‘eu posso’:

Eu posso ter emprego fixo com hora pra entrar e sair.

Eu posso ter chefe me cobrando e dando ordens o dia inteiro.

Eu posso ter um salário que pague as contas da casa ao final de todos os meses.

Eu posso participar de reunião de negócios e usar tailleur e salto alto todo dia.

Eu posso reclamar do Brasil, da vida, do mundo.

Eu posso ouvir notícia ruim, comentar tragédias humanas, acreditar que não tem mais jeito.

Eu posso.

Sim, eu posso tudo isso aí. Já fiz quase tudo isso aí. Mas a que custo?

Ao custo de não ser plenamente o que sou. Ou melhor, ao custo de tentar ser exatamente o oposto do que sou.

E te digo, o custo é caro. Porque é pago em moeda de descontentamento, de infelicidade, de frustração, de tristeza e de morte morrida um pouquinho por dia.

O tempo me ensinou que não vale a pena.

Não queira se espremer todo pra caber dentro de uma forma. Não queira se resumir.

Queira se expandir e crescer que nem bolo de fubá cremoso. Derramar pelas beiradas da forma, pingar no fundo do forno, evaporar seus aromas e despertar paladares.

Não deixe te roubarem esse papel, que ele é seu.

Se você gostou, compartilhe esse texto! 🙂

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