Crônica Da Véspera

Seis da manhã. O alarme do meu celular toca pontualmente ao meu lado. Demoro pra perceber que é hora de levantar. Desligo o despertador e você ri. Ainda está ao meu lado e também desliga o pi-pi-pi insistente do seu relógio.

É quarta-feira, quase Natal. Derrubada na cama, perco o horário da academia e continuo dormindo. Nem percebo quando você se levanta e sai, pra voltar uma hora depois com um copo de água e uma caneca de café com Coffee Mate, meu preferido. Sonolenta e zonza, ajeito o travesseiro pra me recostar e compartilhar com você o café, a água e o calor que o ventilador tenta desesperadamente amenizar.

Deitamos de novo, de conchinha. Seu braço sob minha cabeça, o outro a me abraçar envolvendo um seio na palma da mão. Cochilamos mais um pouco sem vontade de começar o dia.

Você se movimenta, despertando. Eu me movimento, querendo me aconchegar no seu peito mais um pouquinho. Ao meu ouvido você sussurra os compromissos que te chamam e eu, sem intenção de me desgrudar de você nem ficar abandonada na cama vazia, me esforço pra te acompanhar. Levanto de olhos fechados. Com o corpo arrastado sigo a rotina banheiro-cozinha que já sei de cór.

Não faço o suco de abóbora pra tomar em jejum. Também desisto do suco verde que dividimos todas as manhãs. Com o estômago embrulhado, tomo um café preto e como pão com Becel. Você não me chama pro seu colo como faz nas manhãs sem pressa. Está atribulado e já dá sinais de aceleramento. Eu, ainda em ponto morto, arrasto o corpo de volta pro quarto enquanto você, sem vacilar, segue pro computador e se desliga do mundo.

Lavo o rosto, escovo os dentes, olho pra cama mas não deito. Estou estranha, parece que um caminhão me atropelou. Envio umas mensagens pelo zapzap, lembro do presente que ainda não providenciei, troco de roupa e vou até a salinha pra fazer minha prática de Yôga. No caminho passo spray prateado na nossa pastora.

Ainda me sinto atropelada. Pode ser o fígado, tomo um Epocler. Pode ser o calor, tomo um banho frio e demorado, não enxugo o cabelo. Pode ser fome, faço uma vitamina de banana com aveia e Toddy. Parece que vou melhorar.

Saio pra comprar o presente que falta. Pensei no vale da loja de umas amigas, bem diferente, mas resolvo que vai ser um biquíni. São lindos, dá vontade de comprar um pra mim também, outro dia.

No caminho de volta você me liga pra saber se vou demorar. O almoço está pronto: comida árabe que trouxemos da festa da véspera – que acabou às três da manhã, me lembro de repente. Pode ser só sono mesmo. Hoje tem sobremesa, sorvete de chocolate com pedaços que você comprou outro dia, quando brigamos. Tomo deliciada, balançando na poltrona enquanto converso com a diarista, que almoça.

Você resolve sair, também tem presentes pra comprar. Preparo um envelope de banco e te peço pra depositar um cheque na minha conta. Você sai de moto e eu fico pensando que está um dia delicioso pra passear de moto com você.

Começo a me sentir melhor. Meu pai aparece pra uma visitinha rápida, não quer o cappuccino que ofereço. Meu filho se despede com um beijo e óculos escuros. Sai de mochila nas costas, também vai comprar presente.

Me acomodo na frente do computador e edito os textos que escrevi dias antes. A diarista chora porque a filha foi passar o Natal longe dela pela primeira vez. Me lembro de ver a hora. São quase quatro da tarde e me conecto no Skype. O fone de ouvido não funciona, a aula começa e eu adoro. É a última, que pena. Você chega de volta no meio da aula, fala um oi de longe pra não me atrapalhar e já toma seu posto em frente ao computador pra continuar o que tinha interrompido. É seu último dia também, depois de hoje, só quando o Natal passar.

A aula acaba e eu fico cheia de ideias. As palavras saem fáceis pelas pontas dos dedos. Nem me lembro de puxar assunto pra saber como você foi. Seguimos absorvidos por nossos pensamentos, você ali, eu aqui.

Daqui a pouco vai me dar fome e vou te convidar para um café, em casa mesmo. Às vezes você topa e é bom. Mais tarde o filho que saiu vai voltar e a filha que dormiu fora vai chegar pra esperar a prima que vai passar as festas com a gente.

Você se levanta antes de eu te chamar para o café e me surpreende com um convite para a piscina. Te olho sem parar de escrever, sorrio e declino. Não quero parar agora, mas posso te fazer companhia mais tarde. E depois, quem sabe, sair juntinho pra um último happy hour, antes da véspera do Natal.

 

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