Eu choro que nem manteiga derretida. Choro em propaganda de calça jeans, em música de rádio, em consultório de dentista. Choro por tudo e por qualquer coisa. Choro escondida no banheiro, trancada no quarto, agaxadinha de baixo da mesa do bazar. É assim. As lágrimas brotam e derramam e não consigo pará-las ou escondê-las. Também choro em manhãs muito frias, em ar condicionado, em ventania. E tempestade, especialmente as que têm vento que balança as árvores. Choro dormindo também, de sonho. Choro em nascimento mais que em morte. Choro em casamento, mesmo não sendo amiga dos noivos. Choro de rir, sempre. Choro de soluçar uma vez por mês. Choro de raiva e as lágrimas lavam a cara de pau. De vergonha não choro, rio. Choro na despedida e no reencontro. Choro de amor, de saudade, de vontade de tomar sorvete.

Eu choro de crescimento dos filhos, de ter que lavar a louça, de chuva demais. Choro de saudades do mar, de querer areia nos pés, de comer chocolate. Choro de amigos também, especialmente os do coração, porque chorar de amigo é amor. Choro e me derramo e às vezes sou estranhada pelos outros que me veem chorar por aí. Choro dirigindo, choro caminhando, choro parada no lugar. Choro barulhenta, choro silenciosa, pra dentro, pra fora, pra sempre. Tenho um choro sem fim dentro de mim com ganas de se expandir. Precisa escorrer pela cara e pingar no chão, nas mãos, no colchão, no chuveiro. Choro tomando banho quando quero disfarçar. Adoro chorar afundada num abraço, a cabeça aninhada num peito macio e carinhoso, enrolada e contida por braços fortes. Já chorei no jantar, já interrompi o café da manhã pra fugir engasgada de choro. Choro seca quando quero enganar.

Choro que nem cuíca, os pés dançando, a cabeça rodopiando, a cintura enrolada num cordão de carnaval de rua. Um chorinho. Choro pra resolver, sempre resolve. Choro em inglês, em carioquês e em francês, um pouco em espanhol. Prefiro em português. Choro em público e na privada. Às vezes eu choro que nem sanfona, enchendo, esvaziando. Choro pra burro, pra cachorro, pra gato e pra passarinho. De rato e barata eu grito. De susto também grito, mas entre lágrimas. Choro de sono, de sede e de vontade de fazer xixi. Chorona.

Gosto de chorar olhando no espelho, dá pra ver o rosto molhado, os olhos vermelhos, as pálpebras afogadas, a boca úmida, os cabelos suados. É lindo. Morro de chorar quando choro no espelho. Choro na festa junina, na apresentação de final de ano, no Enem, quando bato a cabeça na quina, quando fura o pneu. Choro quando bato o cotovelo, quando enrosco o dedinho do pé. Choro no vestibular e nas fotos coladas atrás da porta do quarto.

Chorei com o resultado do exame de sangue do meu filho. 17 anos. Exame de sangue! Não deu pra segurar. Estava tudo ali, naqueles números tão pequenininhos. Toda a pureza, toda leveza, toda alegria e maravilha frente às coisas da vida. Por que que a gente tem que crescer?

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2 comentários sobre “Por Que Você Chora?

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