Calcei meu tênis, botei um boné, peguei os óculos escuros. Era um domingo de manhã e saí pra correr na rua. Desci até a Pucc, estendi até a Unicamp, dei a volta no Hospital das Clínicas e comecei a interminável subida pra voltar pra casa. Faltando um quarteirão pra terminar a ladeira, quebrei numa rua a esquerda pra cortar caminho. Na outra esquina, no final da quadra, do outro lado da rua, avistei um cachorro me olhando com cara de quem se prepara pra uma investida. Acostumada com situações assim, procurei algo no chão pra me defender de seu planejado ataque surpresa. Achei uma pinha. Dito e feito, o cão atravessou correndo e latindo, avançando na minha direção. Atirei a pinha, errei. Ele se lançou contra mim novamente. Bati o pé no chão e mandei-o embora, ele não se intimidou. Tentei a indiferença e voltei a correr, ele tentou pegar meu calcanhar. Abri os braços e parti pra cima dele, urrando que nem uma ursa humana. Não colou, ele se arrepiou da cabeça ao rabo e latiu mais forte, mostrando os dentes. Parei. Baixei os braços, afinei a voz e comecei uma conversinha doce, um mimimi apaziguador, quase uma toada. Ele silenciou, se acalmou, sorriu e se mandou.

Domingo seguinte saio pra correr na rua de novo, mesmo trajeto. Experiente, evito o confronto e dessa vez não quebro à esquerda na ruazinha do cachorro nervoso, sigo em frente na avenida. Quando estou quase no final, avisto um cão. Outro, duas vezes o tamanho do primeiro, castanho e de olhos azuis, espreitando pra fora do portão aberto de uma casa, do outro lado da rua. Ele também me vê chegando. Ah, não. De novo, não. Observo quando ele se prepara pra atravessar, se arriscando na frente dos carros. Vejo também que um homem sentado na calçada e uma criança de chupeta observam a cena. Me lembro da experiência da semana anterior e paro de correr antes que ele consiga atravessar. Desacelero o passo e disfarço, caminhando como se tivesse saído pra comprar balas na vendinha. Não olho pra ele, só pelo canto dos olhos. Estou atenta, espero. Ele vem até mim, eu faço festinha. Ele me cheira desconfiado, me rodeia investigativo, me olha suspeitoso. Não me movo. De repente, do nada, ele decide. Se encolhe, arma o bote que nem gato e pula pra me lamber a boca. Eu, surpresa pela ousadia, não consigo evitar o beijo resultante dessa súbita paixão. O homem na calçada se diverte. Com as patas enroscando meu pescoço, o cão apaixonado me segura e não consigo me desvencilhar de seu abraço. Cada vez que ameaço dar um passo, ele pula de novo e me enlaça. Ficamos assim, nesse impasse, eu tentando fugir, ele tentando me ganhar. O homem na calçada começa a rir, a criança de chupeta desaparece pra dentro do portão aberto e eu não consigo sair do lugar. Uma eternidade de minutos depois, o dono dá as caras. A cena deve ser cômica porque o rapaz nem faz menção de tomar alguma providência. Deixa-se ficar rindo junto ao homem da calçada. Desesperada, grito por socorro e ele atravessa pra me resgatar do ataque de amor repentino de seu cãozinho apaixonado por mim. Pela coleira, ele arrasta o coitado, desolado, de volta pro seu lugar.

Chego em casa descabelada, arranhada, cheia de barro e baba, com marcas pelo corpo todo, mas consciente do meu recém descoberto poder de despertar paixões arrebatadoras. Ao menos entre os cachorros.

Anúncios

Deixe aqui o seu comentário :)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s