Os Divertidos
Arquivo Pessoal

 

Pensei que fosse noite. Achei que o despertador do celular tivesse se esquecido de me acordar, ou pior, que tivesse mudado o fuso horário num insólito rompante de vontade própria. Estava escuro, bem escuro ainda quando abri a janela. Parecia uma embaçada manhã de inverno em pleno verão. Achei que era noite ainda. Ou podia ser madrugada, naquele momento frio que precede o nascer do sol. Não era, nem noite nem madrugada. Era chuva negra no céu preto de água, sem chover.

Botei o tênis no pé e saí decidida. Fui fazer minha caminhada, que nesse dia teve ares de muita audácia debaixo do aguaceiro que ainda estava preso, apegado ao céu. Fui sozinha. Só eu? Não. Eu e muitos outros, intrépidos guerreiros que moviam seus cambitos desafiando o anuviado amanhecer fora de lugar, em uma primavera que já saudava o verão triunfal.

Não demorou tanto assim e ela chegou sem se anunciar, em silêncio, sem alarde. Não houve vento, não houve trovão. Nenhum relâmpago azulado iluminou o céu. Nenhum chuvisco pra começar devagar. Apenas ela, a chuva, inteira e cheia de água, de repente se desprendeu das nuvens e desabou sobre nós, os destemidos. Chuva grossa de pingos gordos e recheados, molhando cabelos, escorrendo pelas costas, empoçando os pés. Digna de um dilúvio, santa chuvarada. Não era surpresa nenhuma. Quem saiu de casa sabia que ela viria a qualquer momento, num piscar de olhos ou num suspiro. Mesmo assim, teve quem fugisse. Teve quem desistisse. Teve quem parasse. Alguns abriram seus guarda-chuvas, os prevenidos. Teve quem corresse. Outros puxaram seus capuzes, os cautelosos. Teve quem se escondesse com medo de se resfriar. E teve quem se divertisse. Me incluí aí, nos divertidos.

Os divertidos não fugiram nem puxaram seus capuzes, estavam na chuva pra se desenfadar, transformaram a molhadeira em brincadeira e aproveitaram o banho pra garantir o frescor do resto do dia. Não éramos muitos, tenho que admitir, mas éramos suficientes pra nos olharmos cúmplices, ensopados e sorridentes. Não nos conhecíamos, mas reconhecíamos algo em comum entre nós, os pitorescos: um arrojado desejo de receber a vida do jeito que ela vem e de perseverar. A chuva nos uniu em uma provocação conciliadora e a aceitamos de corpo inteiro. Nós, os contentes, nos regalamos e nos divertimos. A camiseta colou, os óculos embaçaram, o short pingou, os tênis encharcaram e as meias se afogaram, felizes. Durou nem muito nem pouco, o tempo exato pra balançar as árvores, encher as ruas e afastar os frágeis e finos. Foi nem forte nem fraca, o bastante pra se fazer molhar e interferir curiosamente numa manhã comum, de uma quinta-feira qualquer, como todas as outras.

Parou do mesmo jeito que começou, sorrateira, e foi chover em outro lugar, despedindo-se de nós, os espirituosos. Cada qual no seu canto, em cada canto nosso um pedaço do céu.

Igual uma instalação, uma manifestação efêmera que provocou sensações táteis, térmicas, comoventes. Um flash mob não combinado. Ampliou os limites, acendeu os sentidos. Tal como uma performance de arte em lugar público, causou estranheza aos outros, mas não a nós, os felizes. Plena distração. Arte pura e lavada.

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2 comentários sobre “Os Divertidos

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