Mas Não Estava Lá

A primeira coisa que vi, grande e acima de todo o resto, foi um enorme envelope onde se lia Diagmed, sugerindo um exame de imagem qualquer, já antigo, sem importância, esquecido e empoeirado na escuridão da tábua preta.

Logo ao lado, encolhidas e abraçadas uma sobre a outra, duas notas de 50 reais, que dormiam de conchinha, acordaram assustadas com minha intromissão repentina. Repousavam sobre uma colcha macia, feita de inúmeras cartas de amor e amizade. As minhas, inclusive, abundavam e ocupavam grande espaço sob o casal de onças agarrado.

Lá ao fundo, um anjo de gesso bronzeado me olhava com cara de acusação: o que faço espiando em espaço que não me pertence?

Um pote de tinta grande e marrom, de costas pra mim, encarava um pedaço de madeira escura. De onde eu estava era difícil saber se a paquerava, se apenas não queria testemunhar o namoro indecente do casal de onças, ou se tinha sido posto de castigo pelo anjo bronzeado.

Aos pés da cama de cartas de amor, uma pequena caixa de veludo negro descansava, com olhos de sonhadora, enquanto segurava com cuidado um pequeno pedaço de papel, delicadamente dobrado e decorado com palavras redondas e desenhos quadrados.

Havia também um molho de chaves sem chaveiro, que parecia mais perdido que situado. E um curioso chaveiro, sem chaves, cheio de botões e com uma tela apagada.

Espremido entre o exame esquecido e o chaveiro sem chaves, uma declaração que não era de amor mas estava assinada.

Atrás de tudo, duro, reto e decidido, um estojo amarelo ocupava seu espaço, empurrando todo o resto pra longe de si. Estava armado em roupa de plástico resistente e liso, e suas beiradas podiam ferir. Era antigo e, por isso, respeitado. Não havia Cristo que o fizesse sair mais dali.

Uma faca de serra e ponta afiada, ameaçadora com suas calças azuis e metal queimado, fazia as vezes de segurança das gentes dali. Imóvel e séria, acompanhava atentamente meu olhar.

Rolando sem parar pra lá e pra cá, uma infantil e pequenina bola 10 de bilhar brincava de esconde-esconde, achando tudo uma diversão e perturbando os mais velhos com toda aquela alegria fora de lugar.

Também havia um caderno brochura pequeno, de uma década atrás, encapado com plástico transparente e decorado com imagem de revista. Andava meio amuado e banguela, já lhe faltavam umas páginas e outras estavam careadas e manchadas pelo tempo. Não contava novas estórias, apenas um sussurro apagado do passado que teve.

Emoldurando tudo isso, duas baquetas de madeira surrada ainda conservavam o vigor dos tempos de rock, suor e bateria, quando então performavam belos saltos e rodopios no ar e podiam causar furor na multidão ensurdecida por tanto estrondo.

O anjo bronzeado, aborrecido com aquela espreita clandestina em área alheia e temendo que informações fossem vazadas por aí, ameaçou-me novamente e eu, que já me sentia uma voyeuse culpada por espionagem e invasão de intimidade, fechei a gaveta e acabei o assunto.

E só te conto tudo isso porque você perguntou.

 

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7 comentários sobre “Mas Não Estava Lá

  1. Me deixou curiosa… Vó,Vó, porventura algum de meud país?Também tenho muitas lembranças engavetadas,mas infelizmente não o dom da escrita que VC tem.Parabéns, Tina,amei.Enyrei numa viagem através do tempo.Beijos.

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