Lugares Onde A Vida Não Está

em um olhar sem brilho. em uma casa vazia. em uma amizade mentirosa. em um quintal sem brinquedos. em um vaso sem flor. em uma agenda lotada. em um sorriso falso. em um abraço só de braços. em uma parede toda branca. em roupas de secadora. em um chão perfeito. em uma escola que só tem dentro. em um carro zero. em um namoro de aparências. em crianças sempre comportadas e arrumadas. em comida enlatada. em picolé que não escorre pelos braços.  em bichinhos mortos. em grama seca. no passado e no futuro. em olhar de mãe que perdeu o filho. na indiferença. no desprezo. em corpos vitrines. em músicas pra vender. em papel em branco e cadernos não usados. na doença. em dia de chuva que você não se molha. em cerca de arame farpado. em livros que ninguém lê. em gavetas esquecidas. em pés sempre calçados. nas cartas não escritas. numa vida sempre ocupada. na chuva ácida. no esgoto. em ninhos abandonados. em lâmpada fluorescente. em exercícios só pra ter corpo sarado. no stress. em ovo de passarinho que caiu no chão. em ovo de galinha que a gente vai comer. na perfeição. em estrada de asfalto. nos jogos de tabuleiro guardados no maleiro. em peixe boiando no rio. na correria e na falta de tempo. na mágoa. na desesperança. em noite de lua sem um brinde e um beijo. na solidão. em todos os dias que você não assistiu ao pôr do sol. nas lembranças que você esqueceu. em unhas sempre feitas. em netos que não amam seus avós. no preconceito. no excesso de conceito. em cabelos sempre arrumados. em boca sem bafo de manhã. naquilo que você queria fazer mas não fez porque não teve coragem. em respostas atravessadas. em pum que ninguém cheira e reclama. em mãos que não tocam outras mãos. na ausência do que é banal. na insônia quando acontece todos os dias. em casa sem bagunça. em vento sem pipa. no azedume. em reuniões de negócios em que não se fala em nada além de negócios. nos remédios pra dormir. nos comprimidos para hiperatividade. em água turva. no que não é inútil. em salas de aula silenciosas. em cinema sem pipoca. em menina triste. em rede que ninguém deita pra balançar mais. em miado fino e pelo macio de gato que ninguém carinha. em rosto sem riso. em jardim sem borboleta nem beija-flor nem flor nem formiga. em vidro sem marca de dedo. em pais que não abraçam seus filhos. em dedos amargos. em lençol sem marca de amasso. na fofoca sobre a vida alheia. em pedra que ninguém joga no lago. na inveja branca e na escura. em bilhete que ninguém quis ler. em aniversário sem alegria. na guerra e no desamor. em caixa de papelão no chão sem um gatinho dentro. em cuco que não aparece nem canta mais. em móveis com cupim. em varal sem roupa pendurada. nos dias em que você não conseguiu ser espontâneo. nas cachoeiras que você já visitou mas não se banhou porque a água estava muito fria. na máquina de lavar que nunca quebra. na lareira apagada. na rotina que você odeia. em casamentos arrastados e sem amor. em bloco de anotações sem nada anotado. em mesa de café da manhã sem migalhas de pão. em casa com adolescente onde não se ouvem risadas escangalhadas. em manhãs sem canto de passarinho e tardes sem serenata de cigarras. em piscina sem ninguém pra nadar. em rádio desligado. em chão de banheiro sem um fiozinho de cabelo. em gente sem um pouquinho de mimimi e gente com mimimi demais. nos pensamentos sempre retos. em tudo o que você gostaria de fazer mas não faz porque não dá tempo.

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