Falando De Mim – Carta Aberta Ao Maior Desamor Da Minha Vida

Eu sei que você vai espernear e tentar discordar de mim na primeira frase que eu disser, te conheço muito bem, mas vou falar mesmo assim. Esta carta é para ti.

Há tempos que te observo e hoje percebi que você vem priorizando coisas que não servem. Veja, o problema não são as coisas, mas a ordem de prioridades é que se inverteu.

Te vejo fazendo das tripas corações para dar conta de tudo o que sonha e ainda transformar seu lar numa casa com perfume de lavanda e cara de arrumadinha, certa de que é o que importa, mas eu te digo que não é isso. Olhe bem à sua volta, com olhos de ver e ouvidos de ouvir, como você mesma diz. O que encontra?

Eu te encontro se desviando de si mesma e nós dois nos afastando cada vez mais um do outro, ligados apenas por um fio de mágoa que cresce e fere, arranhando nosso amor com deveres e obrigações que você criou e aos quais se algemou como escrava Isaura. Nossas conversas são angustiadas pela máquina cheia da roupa que precisa ser estendida, nossos encontros agonizam com a louça suja e por lavar dentro da pia, nossos olhares se ofendem por causa de almoços que precisam ser preparados, jantares que ninguém fez, mesa que ninguém tirou.

Sim, compreendo que tudo isso deve ser feito, mas nossa moeda de troca, ingrata e amarga, é feita com todo aconchego que não nos fazemos, beijinhos que não nos damos, amor que não compartilhamos, história que não escrevemos juntos e desenhos que não deixamos nos lençóis. A frustração e a tristeza andam cavando poços com jacarés entre nós e tentamos, desesperadamente, construir pontes levadiças sobre eles. Será que vale?

O que importa se não varremos o chão, quando estampamos sorrisos porque sobrou tempo para fazer amor? Se não arrumamos a cama hoje porque preferimos andar de mãos dadas e namorar na fila do cinema? Se não dobramos as roupas do varal, mas rimos juntos de uma besteira qualquer? Olhe bem para os meus olhos e encontre em mim todo o amor que há no mundo bem aqui, só para você, te esperando suavizar.

Desnude-se, liberte seu olhar dos véus de Maya que insistem em te esconder toda a beleza que há. Vamos usar os véus para formar desenhos de lápis nas paredes do nosso quarto, onde nunca mais dormimos juntos.

Sinto falta das coisas que nos levam para além das nuvens, boiando com o vento. Quero mais dos dias de rede na varanda, do seu pé se esfregando nas minhas pernas, do seu nariz colado no meu. Tenho saudades de ouvir os sons que realmente importam brotando dos nossos lábios, que nem neve escorrendo das montanhas no calor do sol. Adoro quando lhe percebo sendo passarinho e flor.

Não suponho que se resuma. Desejo que se agigante e crie asas. Expandida, abrangente.

Vem cá, vem me encontrar de novo. Vem fazer as pazes comigo. Tô te esperando para se aninhar em meus braços e receber meu corpo no seu.

Com café fresco e tapioca de leite condensado.

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2 comentários sobre “Falando De Mim – Carta Aberta Ao Maior Desamor Da Minha Vida

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