A Coisa Certa

Você sempre fez a coisa certa? Toda a vida, desde pequenininho, fez a coisa certa? Obedeceu seus pais, seus professores, suas tias, todas as regras e combinados, se comportou bem, respeitou os mais velhos, foi bem-educado, emprestou seus brinquedos, teve modos, não fez birra ou ficou emburrado, se vestiu de forma adequada, nunca falou muito alto nem com muitos gestos, não brigou com os irmãos nem com ninguém, nunca foi muito radical nem agressivo, nem falou de boca cheia ou deixou suas bagunças esparramadas pela casa?

Sempre se sentou com boa postura, nunca pôs os cotovelos sobre a mesa, não cutucou o nariz, sempre disse as palavrinhas mágicas, mastigou de boca fechada e deu conta de todas as suas obrigações antes de se divertir?

Você não tem histórias loucas para contar, não quebrou regras nem convenções, não defendeu com unhas e dentes seu próprio pensamento, ou nunca teve um pensamento próprio justamente para não ter que defende-lo, com medo de contrariar alguém? Sempre foi certinho? Nunca mentiu e não mente até hoje? Muito bem, parabéns.

Mas, preciso te contar uma coisa. A coisa certa nem sempre te leva a um lugar aonde você queira ir. Pra ir para onde quer, tem que deixar a coisa certa de lado. Tem que desafiá-la, chama-la pra briga, pro páreo.

A coisa certa persegue a gente que nem assombração. A coisa certa, quando vem, quer ficar e não quer largar mais. Cria na gente um medo profundo de desagradar o outro, de frustrar expectativas, de não corresponder.

A coisa certa não move montanhas, não abre portas, não desenvolve a coragem, ela só toca o terror. É preciso muita ousadia pra deixar a coisa certa adormecida e abrir as asas que não temos para voar mais longe. Para deixar a coisa certa em silêncio, você tem que acreditar. Tem que confiar. Tem que arriscar.

A coisa certa é uma praga, uma cola de contato grudenta na sola do pé. Quanto mais a gente tenta despregar dela, mais ela se estica toda em fios pegajosos que nos puxam de volta para ela. E mesmo quando conseguimos afastar para bem longe até romper os fios de gosma, um resto dela ainda fica impregnado em nós, um resíduo, nos tentando, criando a culpa e a dúvida, chamando de volta ao que é certo e se esforçando com muito empenho pra colar nossos pés de volta no chão e impedir nossos passos.

A coisa certa torna as pernas pesadas, o corpo grave. Ela dificulta o voo. Nós até abrimos as asas que não temos, mas tendemos a não voar porque os resíduos da coisa certa nos mantêm aderidos ao chão. E para voar é preciso desprendimento. Tem que ter força nos braços. Tem que movimentar os músculos da coragem, da vontade, do comprometimento, da ousadia. Pra voar é preciso se despregar da coisa certa e romper os limites, desafiar as regras, experimentar, conhecer de novo, derrubar crenças e paradigmas. Deixar a razão abotoada e ouvir a intuição.

Pra chegar perto do sol, tem que botar óculos escuros e um boné bem grosso no cérebro. Pra estar junto às estrelas, tem que embrulhar a mente em papel crepom, amarrar com fita de celofane, acomodar a coisa certa numa caixinha de música com bailarina em cima e só abrir depois que aprender a voar.

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3 comentários sobre “A Coisa Certa

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