Ter talento é muito bom. Quem sabe que tem talento já começa no caminho da vida com uma vantagem que os outros não têm. Mas o talento, só, não serve pra nada.

Saber que você é bom em algo, que tem facilidade pra certa coisa, em si, não traz resultados práticos, nem é garantia de sucesso.

O talento é um cara que não pode andar sozinho e nem mal acompanhado.

Ele não sabe se virar, ele tem preguiças. Preguiça de entender mapas, de trabalhar, de acordar cedo, de praticar esportes, de ler, de treinar suas habilidades, de estudar e de se aprimorar. Tem preguiça até de ganhar dinheiro.

É um cara muito folgado. Não gosta de se dedicar, acha que os outros é que têm que lhe dar as oportunidades, abrir as portas, puxar a cadeira pra ele se sentar. Acha que tem que ser servido e tratado como rei.

O talento não se esforça sozinho. Não gosta de se esforçar. Ele pensa que se basta, se sente poderoso na condição de ser o bonzão.

O talento, às vezes, é até arrogante e despreza a dificuldade dos outros, a falta de talento que os outros têm. Acha tudo muito fácil e, por isso mesmo, não dá valor a nada.

O talento gosta muito de uma amiga íntima dele, com quem se dá muito bem, sai de vez em quando e adora passar os dias junto. A procrastinação. Os dois se amam e se encaixam muito bem. Quando estão acompanhados um do outro, não querem mais se desgrudar. Querem é deitar na rede pra tirar um cochilo, passear no shopping todas as tardes, fazer compras, ouvir suas músicas favoritas, bater papo o tempo todo e jogar conversa fora. Param tudo pra tomar um cafezinho e falar da vida dos outros.

Quando a procrastinação namora o talento, tudo fica pior. O talento fica ainda mais preguiçoso e não quer saber de nada além de se jogar nesse amor.

Às vezes, o talento se sente meio sufocado pela procrastinação e até que tenta se manifestar. Se isso acontece, ela toma uma atitude enérgica e bota o talento pra se mexer e se ocupar. Então, ele vai lavar a louça, fuçar a internet, atualizar suas redes sociais, lavar a roupa, ler o jornal, arrumar a casa, assistir TV, lavar o carro. O talento e a procrastinação formam um belo casal. A vida é tranquila. Medíocre, mas tranquila. Sem muitos desafios. Os dois juntos não têm sonhos ousados, nem vontades instigantes. Vivem entorpecidos, dirigindo numa estrada nebulosa, sem saber direito para onde querem ir e muito menos, para onde estão indo.

Mas, de vez em quando em sua vida de bon vivant, o talento topa com uma outra. Esta é uma amiga muito chata, que o importuna e o incomoda muito. Não consegue deixa-lo sossegado e quieto no lugar nem por um minuto. Ela é apaixonada por ele e, se ele lhe der bola, nem que seja uma bola pequenininha, de gude ou de sabão, ela não vai deixar passar e ele não terá mais quietude. Essa amiga azucrinante é a determinação.

A determinação tem esse poder inato de despertar paixões no talento, paixões intensas e irrefutáveis, fogo queimando no peito e na bunda. O talento, então, vai se sentir exuberante, magnífico, realizado e não conseguirá mais ficar parado vendo o bonde passar. O talento descobre que pode pegar o bonde e ir para outros lugares, conhecer outras praias, tomar um sol, ficar mais atraente, mais bonito e melhor. O talento desperta para a prosperidade.

Quando o talento, enfim, aceita o amor que a determinação tem por ele, ninguém mais o segura e ele vai longe, tamanha a paixão que ele descobre que tinha adormecida dentro do peito. Ele se move, ele constrói casas, escreve livros, pinta quadros, compõe músicas, ajuda as pessoas, contagia os amigos, maravilha a família, melhora o mundo.

O talento, quando está de mãos dadas com a procrastinação, fica cego e não sabe que pode ser melhor. Ele vai se resumindo e se recusando a aprimorar, porque sua preguiça está no nível máximo. Ele está contaminado pela preguiça do corpo, das emoções, da mente, da intuição, por todas as preguiças do mundo. Ele é só um saco cheio de areia protegendo algumas pedras preciosas enterradas bem lá no fundo.

Mas se ele resolver dar uma chance à determinação, ela o ajuda a furar o saco e a deixar a areia cair toda no chão. Ela o ajuda a encontrar e desenterrar as pedras preciosas lá do fundo e o ensina a lapida-las até brilharem. Ela lhe dá as ferramentas e o material pra ele fazer jóias raras. E o talento, então, fica curioso e quer aprender a sonhar, a descobrir todo o seu potencial adormecido.

E aí, que amiga você vai apresentar para o seu talento?

Tina Zani

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2 comentários sobre “Quem Tem Talento?

    1. Simmm, a autocrítica é prima-irmã da procrastinação. Posso dizer até que foi ela mesma que apresentou a procrastinação para o talento hahaha Daí, por causa da autocrítica e do perfeccionismo, que é o marido dela, o talento se amontoa com a procrastinação e a família fica completa. Não sai do lugar, mas se sente segura 😀

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