make bad stuff *

A última página do meu caderninho que chegou ao fim. É creme e é cremosa porque é triste o fim. Tem as bordas arredondadas e palavras que escrevi nela sem saber que era a última, antes de saber que era o fim. É um pouco mais grossa que as outras e tem uma textura fosca, gostosa de sentir e ver. É o fechamento de um ciclo. A última nota de um concerto, o encerramento de um tempo, o baixar as cortinas e apagar as luzes e ir embora com as impressões na memória. Seu avesso tem um rasguinho onde ela se emenda com a capa dura com desenhos de flor e cor-de-rosa queimado. Um respiro. Um deixar o tempo passar, a vida fluir e o ar entrar. Não está suja, nem limpa e tem algumas marcas no canto inferior, como impressões em baixo relevo.

As palavras que escrevi antes de saber que tinha acabado me lembram de não ser boba. Me dizem para desapegar, sacudir as ideias e acreditar. Me contam que o bom é melhor do que o não feito e que a expectativa só diz respeito a mim e a mais ninguém. Me mostram que é mais importante fazer do que não fazer.

A última página do meu caderninho tem em si toda a saudade que vou sentir do caderninho. E tem também a chance do recomeço. Tem o reinício. O adeus e o olá, como vai – ao mesmo tempo. Os dois lados da moeda.

A fitinha rosa choque que marcava a nova página em branco, agora vai dormir sossegada, aposentada entre palavras, desenhos, pensamentos e garranchos que já passaram e um dia rabisquei em seus papeis.

Meu caderninho chegou ao fim. Acabou.

As palavras que escrevi, sem saber que seriam as últimas em sua última página dizem assim:

 

Make bad stuff.

Make bad stuff.

Have a low bar.

Make the worst thing you can make. *

 

Sábias palavras.

Tina Zani

♥♥♥

 

*palavras que transcrevi da entrevista concedida por Austin Kleon à Chase Jarvis.

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