as palavras que habito

Na cabeça moram os sonhos já formados, os quereres com forma definida, os pensamentos coloridos e as ideias loucas e enroladas, cheias de nós e fios soltos pendurados. Também moram os cafunés.

Nos ouvidos moram a melodia, os assobios, as músicas sempre as mesmas, os sussurros e gemidos de amor, a língua intrometida, a voz doce da vida que se esparrama de mim.

Na boca não moram, escapam de vez em quando para povoar o mundo e outros corpos, sibilantes.

Nos olhos moram as cores, as flores, o céu azul ou não, a chuva, o mar, a lua e as estrelas, a noite, o infinito, o clarear e o escurecer. Nos olhos também moram o amor de namorar e o amor de deixar crescer.

Nas narinas moram as peles perfumadas de si próprias, os cabelos cacheados, os pescoços macios, e as pontinhas úmidas e geladas dos focinhos dos gatinhos.

No pescoço moram as massagens, os beijos apaixonados e atrevidos, as chupadas, os carinhos, as borboletas meninas.

Nos ombros moram um amigo, alguma timidez, o frio, as preocupações. Também moram o deixar pra lá, o tô nem aí, o tô nem ligando.

Nos braços moram os abraços que adoro dar, o lugar que adoro estar, o calor humano, o conforto, o aconchego e o mundo inteiro.

Nas mãos moram os talentos, os fazeres, os laços eternos, o entrelaçar com outras mãos, o segurar bem firme, o agarrar com toda vontade, o soltar e deixar ir, o abrir, o fechar, o deixar cair, o derrubar e empurrar. Também moram as palavras, a poesia, os bilhetinhos, os agrados, o tocar o outro e o cutucar.

No peito mora o maternar. Também moram o amor, a dor, a alegria, o leite que alimenta, o calor que acalenta, a ternura, o vem aqui, o ouve meu coração batendo e o som da minha respiração.

Nas costas moram as mãos que arrepiam e os lábios que fazem estremecer de prazer.

Na barriga mora o lugar de gerar a vida, de florescer desejos, de gestar sementes. Na barriga moram os embriões de sonhos, os pensamentos recém-nascidos, os quereres fecundados. Também moram a fome, a vontade de comer, o vazio, o cheio, o sangue vermelho e nutritivo que se perde na calcinha. Na barriga moram a vontade de fazer amor, a sensualidade, a sexualidade, o estar sozinha e o estar acompanhada.

Nas pernas moram os lugares aonde quero ir, os lugares para onde já fui, o presente, o futuro, o caminhar e tropeçar e levantar e continuar.

A vontade de ir e de voltar, de dançar, de saltitar, de correr e de ficar mora nos pés. Nos pés também moram o aprender a andar, o esticar toda e espreguiçar, o pisar, o esmagar, o sustentar. Meus primeiros passos moram nos pés e meus últimos também. E é nos pés que mora o ficar de pernas pro ar.

Tina Zani

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