Houve um tempo em que eu e meu marido cuidávamos sozinhos de quatro crianças, cinco cachorros, três gatos e dois passarinhos. Era um tempo muito bom. Estávamos juntos no amadurecer da vida, no crescimento, na educação dos filhos, dos nossos bichinhos de estimação e de nós mesmos.

Mas o tempo passa e a vida vai em frente sem olhar para trás. Os filhos cresceram e começaram a sair de casa. Os bichinhos envelheceram e começaram a se despedir de nós.

Moro em uma casa com janelas, portas e rede na varanda, numa chácara gostosa e cheia de vida. Daqui se vê o sol nascendo e a lua aparecendo, as estrelas e as nuvens. As maritacas vêm visitar em bando, todas as manhãs e finais de tarde. Tem joão-de-barro, sabiá, bem-te-vi, pica-pau, coleirinha. Tem terra, grama, areia, árvore, flores, sombra, brisa, calor. Tem aranha, formiga, abelha, minhoca, lagartixa. Tem lagarto. Mas, acima de tudo, tem espaço, muito espaço. Espaço para ser, para existir, para exercer, para fazer e para não fazer também. E tem um espaço muito especial, o espaço de receber de braços abertos, de acolher, de respeitar as diferenças e de aprender juntos.

Nessa casa, tanto faz se você é adulto, criança, bichinho ou outra coisa qualquer, habitante, visita ou agregado, tem espaço pra você.

Não é uma casa perfeita, é apenas uma casa de verdade. Tem alguma bagunça, um pouco de poeira, tem roupas penduradas no varal e louça na pia quase sempre. Tem coisas por fazer e coisas que já deviam ter sido feitas. Mas tem calor humano e, tão longe da perfeição quanto mais perto da imperfeição, tem um lar e uma família que mora nela.

Há alguns meses, resolvemos adotar uma cadelinha sem raça definida. A nossa Pipoca já está velhinha, com mais de quinze anos, meio surda e sentindo a solidão da velhice, então achamos que uma criança na casa poderia deixa-la mais animada e alegre.

Afinal, hoje já não temos mais quatro crianças, cinco cachorros, três gatos e dois passarinhos. Ficaram conosco nossos dois últimos adolescentes, duas cachorras, dois gatos, os dois passarinhos e ainda mais espaço.

Começamos a procurar nas feiras de doação de animais e ontem encontrei uma que me encantou. Era preta, magra, pequena, feinha e medrosa, mas era linda e querida. Decidimos que seria ela a nossa nova criança.

Mas não fui aprovada na entrevista de adoção e não pude traze-la para casa.

Primeiro, a moça implicou com a marca de ração que ofereço às minhas cachorras. Depois, implicou com o fato de eu morar numa casa com varanda e de esta estar dentro de uma chácara. Então, implicou porque a cachorrinha era muito pequena e a casa tem muito espaço. Depois, implicou porque já temos outros bichinhos em casa. E, por último, implicou porque a família é grande e desconfiou que eu não daria o conforto e a atenção que a pequena merecia.

Nada do que eu tinha para oferecer de valor servia para ela.

Quando ela sugeriu que precisaria vir até minha casa para concordar, ou não, com meu interesse na adoção, eu finalizei a conversa com um agradecimento confuso e incomodado.

Entendi o que ela estava querendo me dizer: ela não achava que eu tinha condições de adotar um bichinho. Estava me reprovando.

Confesso que fiquei desconcertada. Ser reprovada em qualquer coisa não traz uma sensação muito boa. Ainda mais quando a não aprovação está relacionada com o que você mais valoriza na vida: família, lar, convivência, espaço, natureza, atenção e respeito ao modo de ser de cada um.

Voltei para casa de mãos vazias.

Minha pastora amarela estava me esperando no portão, com sua farta juba de leoa, conseguida a duras penas depois de termos, enfim, controlado uma doença congênita que custou caro e deu um trabalho desgastante. Agarrei aquela juba com carinho para dar-lhe um oi caloroso e ela se esparramou no chão para receber meus afagos, tão orgulhosa de seus novos pelos quanto eu.

Entrei na varanda e meus passarinhos me chamaram insistentemente para uma conversinha na gaiola, momento em que eles adoram fingir que bicam meu dedo e me imitar com voz fina falando com eles.

Enquanto isso, aos meus pés, a Pipoca não parava de pular e abanava o rabo esperando a hora de ganhar seu carinho também.

Quando cheguei na sala, meus dois gatos quase me atropelaram correndo, vindo de lá de fora para miar para mim e dizer que estavam com saudades.

Em cada um desses encontros eu me lembrei que tinha sido reprovada porque alguém achou que eu não tenho condições de cuidar de um bichinho de estimação. E em cada um desses encontros, a realidade e os bichinhos dos quais cuido me disseram que isso não é verdade.

Pensei bastante sobre esse paradoxo e a conclusão à qual cheguei é de que nunca vamos agradar a todos.

Alguém sempre vai discordar do que somos, do que valorizamos, do que oferecemos e do que fazemos.

Mas a boa notícia é que não temos que agradar a todos e o fato de alguém não nos aprovar não significa que não temos valor ou que não somos capazes.

Feedback é bom, mas tem que ser livre de preconceitos e de expectativas irreais ou ideais, e só devem ser levados em consideração quando acontecem em situações em que se tenha acesso a informações suficientes para basear uma opinião.

Num único encontro, e com o coração cheio de poréns, é muito difícil de se desenhar algo próximo do real.

Fiquei sem a cachorrinha mas, graças aos outros bichinhos que tenho em casa, recuperei o bom senso e me lembrei de que a realidade tem tantas formas quantos forem os olhos que a enxergarem.

Tina Zani

♥♥♥

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