Ele vem quando você menos espera. Chega quando você está mais relaxada. Especialmente depois do almoço ou à noitinha, naquele silenciosinho gostoso, quando os músculos estão entregues e descontraídos, os olhos semicerrados, a mente se desconectando, você totalmente abstraída e, de repente, pá.
É assim mesmo, pá! Ele chegou. Curto e grosso, às vezes longo e sibilante, mas sempre invasivo, sempre afrontoso. Te tira lá de onde você estiver, lá de onde você quer ficar e traz de volta para cá, para a lucidez, para a vigília. Você quer fugir, mas ele não vai deixar, nana nina não.
Depois que chega, já era, não te abandona mais. Às vezes até parece que vai te dar um tempo, vai embora. Ameaça te deixar em paz, então você começa de novo o processo. Relaxa, descontrai os músculos, fecha os olhos, divaga a mente e, quando está quase totalmente desligada do mundo, pá! Ele volta e te surpreende. Às vezes até te assusta.
Você tenta se concentrar em algum pensamento, tenta prestar a atenção na sua respiração, tenta fazer um relaxamento progressivo e dirigido mentalmente, começando pelos pés, subindo pelas pernas, passando pela pélvis, tronco, braços e cabeça, mas é difícil de se focar. Ele te atrapalha, ele não te deixa sossegada. Finge que vai deixar, mas era só fingimento, cê acha! Ele volta com tudo e até te assombra.
Você vira de lado, experimenta ouvir uma música, liga o ventilador. Agora vai. Afofa o travesseiro e começa o processo outra vez, mas ele volta ainda mais presente, com tudo, com força, com vigor. Você não quer força nem vigor agora. Você quer preguiça e descanso. Mas ele insiste em te fazer mudar de opinião.
Você vira para o outro lado, toma um gole de água, levanta para fazer xixi, pega um livro para ler. Mas ele não quer ser ignorado. Ele não gosta de indiferença. Ele quer que você o repare, que preste atenção nele. Quer você só para ele, desperta, atenta, de olhos bem abertos e coração palpitando forte de ansiedade.
Você não aguenta mais a insistência. Você não está afim de ser complacente com tanta carência. Você quer exercer o seu direito à sua individualidade, ao seu pedaço de cama, à sua parcela de silêncio. Mas ele não dá o braço a torcer. É osso duro de roer e não vai ceder só porque você quer. Te importuna, te persegue, te irrita, te incomoda, te arranha.
Você lê a mesma linha do livro três vezes e ainda não consegue saber o que está escrito, porque ele está se comunicando com você sem parar. Não te dá uma trégua, não percebeu que você não está interessada e que seria melhor que ele sumisse e te deixasse em paz. Ele não quer te deixar em paz, não quer te deixar sossegada e na sua. Ele quer interagir, quer reação, quer assunto para discutir.
Horas já se passaram e você continua na mesma. E ele também. Não chegaram a um acordo. Não existe acordo para vocês. Nesse processo todo, você passou de relaxada-quase-entregue à incomodada, à inconformada, à frustrada, à irritada, à desesperada, à furiosa. Ele não. Ele se manteve o mesmo do começo ao fim. Ele sabe a que veio desde sempre. Seu objetivo é ser rei e ser ouvido e respeitado. Não vai abrir mão disso, nem adianta espernear e se descabelar. Ou, pior, nem adianta ameaça-lo com cutucadas, empurrões, broncas ou tentativas de semancol. Não, é esforço perdido. Ele pode até ceder por alguns minutinhos, surpreso com a sua reação, mas voltará firme e forte logo em seguida, aliás, mais firme e mais forte. E vai deixar bem claro para você que com ele não tem mimimi, os incomodados é que se retirem.
Ele é uma praga que você quer domar, combater ou exterminar. Ele não consegue se calar. Se você não se preparar, ele vai tirar seu sono, sem dó.

Ele, o ronco.

Tina Zani

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