o inverno da alma

inverno
IlustraçãoTina Zani

E se um dia o inverno chegar? E se um dia você se sentir seco, tão seco que não tenha mais o que oferecer? E se teu tronco esturricar e tua casca começar a soltar e cair, tuas folhas, tão exuberantes e verdes em outros dias, se desprenderem, mortas, de ti? E se, mesmo te esmerando, te esforçando, te espremendo, te arrebentando por dentro, você não conseguir produzir flores? E se só o que você conseguir produzir sem parar forem pingos grossos de seiva grudenta, como lágrimas pegajosas e insistentes que teimam em se derramar na terra, na grama, no vento, no chão? E se você tiver a nítida sensação de que a vida está se esvaindo de ti, que o céu não é mais tão azul, que o sol não é mais tão sorridente, que os passarinhos não te visitam nem te fazem seus ninhos, que a chuva não vem te aliviar, que o vento que sopra não te beija mais, só te arranha os galhos? E se você ficar nu, completamente nu e desprovido de adornos atraentes e só o que te restar for a tua sombra pelada, triste e envergonhada, projetada no espaço ao teu redor?

Então, se isso acontecer, é porque o inverno chegou e o inverno é frio e implacável. Ele vai te fazer te encolher e recolher tuas tralhas, que estavam tão gostosamente esparramadas antes do frio te alcançar. Ele vai tornar teus movimentos lentos e dolorosos, vai te fazer querer te esconder embaixo de densos cobertores, vai te rachar os lábios e gelar tuas mãos, antigamente tão mornas e suaves. Você vai sentir teus pulmões desesperados, ofegantes em busca de ar respirável. Tua pele vai murchar desidratada ainda que você se entupa de água, teus músculos vão ranger e teus pés vão endurecer, sem poder andar. Você vai ser invadido por uma inércia incontrolável, uma necessidade arrebatadora de não te mover, de não abrir os olhos, de não acender a luz. Vai te sentir estranho, cansado, sozinho, frágil, pequeno, muito confuso, vazio e completamente sem sentido.

Uma dor aguda vai te apertar o peito e o ar que você conseguir inspirar, virá acompanhado de pequenos soluços silenciosos de choro preso na garganta. E você vai ter medo. Muito medo. Medo de não saciar a tua fome de vida, de nunca mais florescer, de definhar tanto que não consiga mais levantar e caminhar. Terá medo de o inverno ser muito longo, de não ter fôlego o suficiente, de não ser capaz, de não ser forte o bastante, de não ter coragem para resistir. Terá medo de fracassar e de não corresponder. Medos inexplicáveis, desconhecidos, reprováveis, inadmissíveis, infantis e às vezes ridículos. Medos reais.

E você vai ansiar pelo fogo sagrado de uma lareira. Pelo aconchego de uma poltrona confortável e macia, um xale de lã vermelha sobre os ombros aquecendo tuas costas desprotegidas, uma xícara de chá de maçã e canela e um ouvido doce e acolhedor para te aliviar a dor desses dias tão frios e solitários.

Esse é o inverno e, embora você relute em acreditar, e você reluta genuinamente porque o inverno parece infinito enquanto dura, ele vai terminar e a primavera vai chegar, na hora certa.

E ainda que você tenha perdido todas as tuas folhas e não produza mais lindas flores, esteja sem casca e teus galhos chorem, mesmo ressecado, esturricado, frágil, mesmo definhando em tua própria sombra, você ainda tem as tuas raízes.

É delas, sujas de terra e enfiadas no solo, que a primavera surgirá.

Tina Zani

♥♥♥

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