sobre a mão do carrasco

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Arquivo Pessoal

 

Essa é uma história muito comum e pode ser atribuída, se não totalmente ao menos em partes, à vida, às dúvidas, à doação inerente à qualquer mulher. Ela mostra o que acontece quando não somos capazes de nos levarmos à sério. Quando não nos erguemos acima dos percalços, das dificuldades. Quando nos submetemos ao cárcere da nossa própria psique, que insiste em nos sabotar em nome do bem estar de outros, mais importantes, mais merecedores, mais dignos de respeito do que nós mesmas.

A desculpa, nessa história, é a falta de um espaço para ser, um lugar para exercer. Mas essa desculpa pode ser substituída por qualquer outra que pareça verdadeira: não tenho talento, não sou importante, não tenho instrução, não tenho ideias, não sei como fazer, não sei o que fazer, não sei quando fazer, não posso, tenho filhos, tenho marido, sou mãetorista, não tenho tempo e outras tantas que gostamos de usar.

Faz um tempo que a escrevi, mas não tinha tido coragem de torná-la pública porque é uma história torturante, quase macabra, e me vejo nela em muitos aspectos. Então percebi que colocar-se em segundo plano é uma característica muito comum às mulheres em geral. Somos capazes de nos mutilarmos pelo bem estar de nossa família e, pior que isso, fazemos isso achando que é o que temos que fazer. Colocamos tudo acima de nossas necessidades mais genuínas e passamos nossa vida esperando o momento em que poderemos apenas ser. Nem percebemos que esse momento nunca chegará, a menos que algo mude dentro de nós, a menos que despertemos para quem realmente somos e o que realmente queremos, a menos que deixemos de ser ingênuas.

Não podemos ser boazinhas no que diz respeito à proteção da expressão da nossa alma. Quando a expressão da alma, seja ela qual for, está sendo ameaçada, é imprescindível fixar um limite e ser fiel a ele. ~ Clarissa Estés

A seguir, a horrível história que escrevi. Espero que, pelo menos, sirva para alguma coisa.

°♥°

Ela achava que tinha que ter um espaço só para si em sua própria casa, mas não tinha e era um saco.

Ela trabalhava em casa e achava que o fato de não ter um lugar só para si, nesse caso, era um saco maior ainda.

Ela era uma artista e como não tinha um lugar para guardar seus trabalhos, não fazia trabalho algum. Ela também não tinha onde se esparramar com seu material, então não se esparramava e nem tocava no material, que era novinho e era muito bom. Ela não tinha espaço para produzir, então não produzia. Como produzir assim?

Ela também era uma escritora, mas não tinha como se fechar em uma sala para se concentrar, então não escrevia. Também não podia ficar imersa fora do mundo por algumas horas sem ser atrapalhada, afinal estava viva e, estando viva e vivinha da Silva, tinha filhos, marido, amigos e bichinhos que lhe interrompiam e não lhe davam um tempo. Então, como escrever? Como não tinha um espaço só para si em sua própria casa, tinha que usar a mesa da sala para sua arte e sua escrita, caso resolvesse produzir, mas, para isso, teria que disputar o espaço com a TV, os filhos e o marido. Então, como produzir? Como produzir? Como produzir? Como produzir? Era o que ela se perguntava o tempo todo. E não produzia nada.

Sua necessidade de produzir, no entanto, vinha das profundezas de sua alma feminina, lá do âmago, era vital e muito maior que ela. Então, na falta de espaço, passou a produzir outras coisas, mais aceitáveis e úteis.

Produziu roupas caprichosamente limpas, louça primorosamente lavada, chão zelosamente varrido, janta saborosamente pronta. Também produziu excelentes sorrisos amarelos, perfeita falta de ânimo e sonhos em demasia.

A família estava achando tudo maravilhoso e gostoso e todos os dias o marido a enchia de beijinhos, abracinhos e elogios. Os filhos estavam crescendo corados e fortes e os amigos adoravam sua casa organizada e limpa.

Produziu camas cuidadosamente arrumadas, quintal metodicamente lavado, fogão minuciosamente esfregado até brilhar, banheiros requintadamente perfumados, privadas escrupulosamente límpidas.

A cada dia que passava, o marido ficava mais satisfeito e as crianças mais sorridentes.

Ela achou isso muito bom e resolveu produzir ainda mais.

Produziu uma pele completamente opaca, dois olhos sempre profundos, esbugalhados e sem nenhum brilho, uma falta de apetite total e uma super mega blaster bela insônia.

E ela continuou produzindo sem parar, estava em um ritmo louco.

Dessa vez se empenhou de verdade. Produziu uma maravilhosa depressão, uma estonteante fraqueza, uma fascinante anorexia e finalizou com uma estupenda despedida.

Sua última produção foi uma formidável morte, largada na cama da sua própria casa, que não tinha um espaço só para si.

 

Tina Zani

♥♥♥

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