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Era uma vez a Maria Semente. Maria Semente era uma sementinha que vivia feliz na superfície da terra, à sombra de uma árvore. Passava os dias a rolar para lá e para cá com o vento, tomava banho de chuva, conversava com as formigas, tomava sol e brincava com as outras sementes de manhã até à tardinha. A vida era boa e ela estava muito feliz. À noite, dormia morna e confortável em seu cobertor fino de terra úmida, mas no dia seguinte queria logo saracotear por aí. Nem pensava em germinar, ela tinha muito medo de descer às profundezas da terra, tinha medo da escuridão.

Todas as suas amigas sementes, uma hora, ficavam quietinhas em seus buracos para poderem virar mudas e deixavam de brincar com ela, mas Maria Semente nem ligava porque sempre apareciam outras sementes para lhe fazer companhia.

Dias, semanas, meses se passaram e ela seguia na sua vida tranquila e doce, sem nunca pensar em virar uma muda. Para quê? Afinal, já estava tão satisfeita do jeito que era.

Um dia, veio uma forte tempestade que afundou Maria Semente bem fundo no chão. Maria Semente ficou coberta de muita terra e lama. Ficou presa lá embaixo, lá no fundo, no escuro, cheia de medo e de susto, sem conseguir se mexer mais. Maria Semente nunca tinha ido tão fundo. Não conhecia a escuridão, as trevas, a solidão, a lama, o lodo. Não sabia o que fazer. Não queria ficar ali. Não enxergava nada direito, estava com frio e queria que alguém a tirasse daquele buraco. Gritou bem forte, pedindo socorro, mas ninguém a ouviu por causa da chuva e dos trovões. Esperneou, descabelou-se, esgoelou-se, chorou copiosamente, lutou com todas as forças, mas ninguém apareceu. Tentou de novo. De novo. De novo. Não podia acreditar no que estava acontecendo, não queria nada daquilo. Revoltou-se contra tudo e contra todos. Por que ninguém vinha tira-la daquele buraco escuro e cheio de sombras?

Fechou os olhos e recusou-se a encarar a lama que a rodeava. Não quis nenhuma intimidade com a escuridão. Estava triste, magoada, angustiada. Queria ver de novo o sol, sentir o vento, ouvir os passarinhos, conversar com as formigas. Chorou até suas lágrimas secarem, mas continuou sozinha, de olhos fechados, no breu. Ninguém apareceu.

Passaram-se dias sem que nada acontecesse e Maria Semente começou a ficar impaciente. Daquele jeito não dava, não podia mais ficar assim. A tempestade já tinha acabado fazia tempo, mas ela continuava lá no fundo, sozinha, de olhos fechados. Resolveu tomar uma atitude. Precisava voltar à superfície ou morreria ali embaixo, sem nunca mais ver a luz do dia.

Respirou fundo, tomando uma coragem que vinha lá do dedinho encolhido do pé e resolveu abrir os olhos. Um só, para começar. Olhou em volta, desconfiada, e viu a terra escura que a prendia no solo. Abriu o outro e percebeu que não era bem assim, não parecia que a terra a prendia. Na verdade, parecia mais que ela a abraçava, que fazia parte dela.

Resolveu estender os braços e sentir a terra com as mãos. Hummm, era macia e gostosa de tocar. Ficou com as mãos meio sujinhas, mas não se importou muito. Estava começando a se sentir mais segura na escuridão.

Decidiu, então, esticar as pernas, mas pensou duas vezes antes de se mover. Não sabia o que havia lá embaixo. Tomou mais um gole de coragem e… pá! Estendeu os dois joelhos de uma vez e ficou em pé. Nessa hora, algo mágico aconteceu: ela cresceu. Sua cabecinha subiu acima da terra e seus olhos enxergaram o sol. Maria Semente deixou de ser semente e virou um broto.

Surpresa e orgulhosa, olhou para baixo e vislumbrou seu novo pequeno caule saindo verdinho das profundezas do solo e, abaixo dele, ela não viu, mais soube que suas raízes continuavam firmes, abraçadas pela escuridão que a nutria.

O pior já tinha passado. A coragem para virar muda já tinha brotado. Agora, ela só precisava de amor para virar flor.

Tina Zani

♥♥♥

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