o pintinho

o pintinho
arquivo pessoal

Esses dias meu filho estava arrumando o quarto dele e começou a mexer em coisas antigas, guardadas há muito tempo, sabe-se lá aonde no meio da bagunça organizada dele.

De repente, depois de alguns minutos de silêncio total, me chamou: mãe, olha só o que eu achei!

Parei tudo e lá fui eu, curiosa do jeito que sou.

Em suas mãos havia uma caixinha de veludo preto, daquelas que a gente ganha quando compra uma joia cara, sabe? Por fora, não reconheci. Fiquei tentando imaginar que joia estaria ali dentro: um pingente de quando ele era bebê, uma correntinha de ouro, um medalhão de batismo, uma pulseira com o nome dele, um alargador de prata ou um piercing de septo? Não tinha a menor ideia.

Daí, com os olhos brilhando, sorriso na boca e uma cara de encantamento, ele abriu a caixa.

Piorou. Consegui distinguir apenas um minúsculo aglomerado de pelos sintéticos amarelos, todo descabelado, emaranhado. Eu, que comecei a usar óculos para enxergar de perto no início do ano e não estava com eles ao meu alcance, não vi nada.

Então, ele pegou aquela bolinha de pelos entre os dedos e virou-a de modo que ela, com dois pequeninos pingos de olhos pretos, desnivelados, me fitasse de baixo para cima. Havia também um biquinho vermelho que parecia um fiapo e duas perninhas finas e amassadas embaixo da bola de pelos amarelos e desordenados.

Foi um segundo que demorou dezoito anos para acabar. De repente, dezenas de cenas do meu passado, de uma época já tão distante, foram se projetando na minha mente como se fosse um filme de cinema, me fazendo lembrar de quem eu tinha sido, de como eu tinha sido e porque eu tinha sido daquele jeito.

Fiquei surpresa com o que me lembrei: uma menina cheia de ideias e de um amor profundo maior que ela, aprendendo a ser mãe, a cuidar.

Fazia tempo que eu não visitava esse passado, já que o presente está tão presente e cheio de desafios – mas essa é uma outra história.

O que havia dentro da caixinha de veludo era um pintinho, que coloquei lá quando meu filho era bem pequeno e tinha medos – medo de trovão, medo de dormir sozinho, medo de não conseguir. Ele tinha medos e não sabia como lidar com eles – isso soa familiar para mais alguém?

Então, muitas vezes ficava bravo, de testa franzida, bico comprido e só faltava raspar o pé no chão como um touro bravo, soltando bufadas pelo nariz.

Era engraçado. Sempre que ele fazia isso, eu, nem um pouco criativa, enxergava na minha frente a caricatura de um touro brabo e tinha que disfarçar meu acesso de riso.

Tente imaginar! Um menininho pequeno, tão bravo que pareça um enorme touro raivoso. Era ele.

Em um desses momentos teatrais, em que ele fazia o touro e eu a louca escangalhada tentando esconder o riso, tive essa brilhante ideia. Coloquei o pintinho amarelo na caixinha e o apresentei a ele. Expliquei que o pintinho estava ali para ser seu amigo. Que ficaria quietinho dentro da caixa, ao lado de sua cama, esperando que ele viesse lhe contar as coisas legais e chatas do seu dia. Que se ele prestasse bastante a atenção, o pintinho lhe contaria coisas interessantes e responderia suas perguntas, mas que só falava em sonho ou em silêncio.

O pintinho, ignorante de tudo isso, acabou ensinando meu filho a ouvir e confiar em sua intuição. De dentro da caixinha, ouviu todos os seus segredos, suas dores, suas dúvidas, seus medos, e nunca abriu o bico.

Foi muito especial revê-lo. Um pedacinho de matéria sintética tão cheio de significado e conteúdo. Uma representação pequenina e simbólica da enormidade do amor.

Tina Zani

♥♥♥

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4 comentários sobre “o pintinho

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