para minha avó ficar mais alegrinha

para minha avó ficar mais alegrinha
arquivo pessoal

Minha avó, que era uma pessoa muito sensível, divertida e especial, uma vez me disse que não conseguia mais conversar com meu avô porque os dois já não ouviam direito. Eles, então, decidiram se comunicar por escrito.

Separaram, assim, um caderninho e uma caneta que deixaram ao lado da cama.

Aconteceu que, logo nas primeiras noites, ao tentarem pôr em prática essa ideia, notaram alguns percalços. Toda vez que quisessem se falar, precisariam acender a luz, colocar os óculos e encontrar o caderno e a caneta, a qual, normalmente, caía no chão e os fazia ter que descer da cama para procura-la, tarefa nem um pouco simples de se desempenhar em idade avançada.

Inconformada com essa situação, ela se lamentava me dizendo que sentia estar sumindo, desaparecendo, levitando lá bem longe da realidade, já que não ouvia mais os sons da vida, não enxergava mais as cores vibrantes da natureza, andava com muita dificuldade e vagareza e se cansava facilmente. Assim, concluiu ela, só lhe restava amar, amar muito e todos, e enviar seu amor ao mundo.

À princípio, fiquei indignada ao me dar conta das dificuldades que a vida nos impõe conforme o tempo passa. O corpo envelhece e, muitas vezes, se recusa a funcionar direito. No entanto, a alma que vive dentro do corpo se mantém vibrante, quente e cheia de sonhos do presente.

Mas, depois, percebi que não poderia ser de outra forma.

Pense. Aquela mulher, o ser humano que compartilhava comigo sua aflição, nasceu criança e construiu sua história de alegrias e tristezas ao lado de seu amado e suas cinco crianças. Pelo caminho, lutou, trabalhou, sofreu, amadureceu, sorriu, sonhou e ainda aceitou a escolha de Deus, que levou um de seus queridos filhos para virar anjo no céu. Viveu tanto e com tanta intensidade que, realmente, não poderia caber num corpo de simples mortal que um dia se acaba.

Sua existência terna e eterna era tão grande e estava em tamanha ebulição que precisava se expandir e se espalhar, aquecendo outros corações e compartilhando seu amor com outras almas, livre das limitações que a embalagem humana impõe.

Então, percebi que minha avó devia mesmo estar levitando, pois lá do alto ela poderia ouvir e enxergar melhor aqueles que apreciavam seu carinho e enviar, como um sol, os raios do seu amor infinito.

Tina Zani ♥♥♥

*esse texto foi editado de uma carta que escrevi para minha avó em 26 de fevereiro de 2001.

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