Bonnie
Arquivo Pessoal

Bonnie estava diferente. pequena, peluda e escura, parecia mais um rato que um gato. os olhos amarelos e o nariz alongado, lhe davam um ar da Pérsia. não de gato persa, mas de uma gata da Pérsia: pernas delgadas, corpo esguio, orelhas pontudas, olhos amarelos com um risco preto cortando-os ao meio, e o nariz fino e alongado com a ponta rosada, qual um termômetro. era bem diferente dos outros gatos da casa e, nos últimos dias, andava ainda mais diferente. acordava miando, um miado doce e rouco, cortado por pequenos roncos e um ronronar constante. com a cauda ininterruptamente eriçada, rolava no chão, se esfregando de um lado para o outro, revirando a cabeça, espichando as pernas e os braços em sentidos opostos bem espichadinhos, e deixando a barriga e o ventre macio para cima. de vez em quando, sentava-se empertigada e miava para a janela fechada, contemplando, desejosa, a paisagem molhada de chuva lá de fora. não queria ficar sozinha de jeito nenhum e se punha a acompanhar qualquer humano que se movesse, trançando-se entre pernas e pés como se fosse uma bola de pelos, conduzida por pequenos dribles, até ganhar um agrado. andava inquieta, tomada de um profundo sentimento de carinho que não cabia nela só e insistia para que alguém lhe abrisse a porta.

era o cio lhe apresentando a desejos extremos que ela ainda não conhecia. desejos de um calor de sol lhe aquecendo por dentro cada minúsculo vasinho lânguido da pele e da alma, e de um vento suave refrescando o que o sol amornou só para querer aquecer novamente. queria o que não se pode dar, um pouco de tudo. não gostava de água mas estava louca por uma viagem ao mar, e os olhos de aquarela que dançavam hipnotizados já esqueciam toda a história e queriam se afogar de afeto. no corpo todo estava tomada de um ímpeto de amor e as unhas afiadas arranhavam a porta, o azulejo da cozinha, a almofada da cadeira. queria deitar. depois, queria levantar. parecia que estava com fome, mas era sede. deitou na cama, se espreguiçou no chão, se embolou no sofá. olhou de novo a chuva pela janela e as poças de água no jardim. pensou em se aquietar, mas um murmúrio trepidante surgiu no seu umbigo, derramou pelas pernas, sacudiu suas costas, esticou seu pescoço e sem que se pudesse segurar, escapuliu.

Tina Zani

♥♥♥

Obrigada pela visita. Se você gosta dos meus textos, considere compartilha-los ou adquira um livro meu 😀

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