carta à Bonnie

carta à Bonnie
arquivo pessoal

Você chegou num dia quente de dezembro. Pequena, orelhuda, parecia mais um rato peludo do que um gato.

Tomou conta da casa como se fosse sua, ignorando os direitos dos outros gatos que já moravam aqui muito antes de você.

Botou ordem no pedaço. Decidiu quem podia ficar e quem teria que ir passear na chácara. Movimentou toda a família até conseguirmos resolver o seu problema com a água: tinha que ser gelada, de preferência com uma pedrinha de gelo boiando dentro e precisava estar em uma vasilha de cerâmica em cima de um banquinho no canto da cozinha, bem ao lado da geladeira, ou você se recusava a beber.

Era brava, muito brava. Botou o Nestor no lugar dele: do lado de fora do seu círculo de amizades felinas.

Resolveu que dormiria em cima do balcão da sala e ninguém conseguiu te demover desta ideia.

Gostava de ‘carninha’ e fazia coro com o Haroldo para me convencer a servir-lhes um sachê todas as manhãs. Fez bullying com a Olívia. Montava guarda na porta da cozinha para não deixa-la entrar em casa.

Era conversadora e tinha o miado mais doce que eu já ouvi na vida. Saía como um sopro suave de dentro do peito. Às vezes longo, às vezes curto, às vezes só um ponto de exclamação.

Não gostava de ficar sozinha, nem de ficar quieta. Embora fosse a mais nova da casa, se comportava como uma velhinha coroca cheia de hábitos e manias, meio ranzinza, fazendo fofoca.

Foi no sábado de carnaval que você silenciou. Começou assim, não miando, não conversando, sem assunto para me contar. Botei a carninha, mas você nem se interessou. Deu apenas umas lambidas tímidas e deixou tudo para o Haroldo. Coisa inédita, jamais havia acontecido antes.

Ficou quieta, parada, amuada, com seus olhinhos amarelos olhando para o nada.

Te levei ao médico e chorei em bicas abraçada com você em cima da mesa gelada do consultório. Foram seis dias consecutivos de amor intenso no meu coração, nas minhas mãos que te acarinhavam, alimentavam, hidratavam, medicavam, nos meus olhos que te olhavam e transbordavam, na minha voz te conversando, te confortando, te incentivando, te elogiando a cada seringa de água e comida que você tomava. Seis dias que te cuidei de hora em hora, te abracei forte, te segurei em meus braços, encostei meu nariz no seu focinho pequenino, rocei meu rosto na sua cabecinha macia.

Você tomou injeção todos os dias, tomou soro, vitamina, remédio. Parecia que ia reagir. Voltou a subir no balcão e chegou a ir passear na chácara, mas no sexto dia o cansaço te alcançou e você suspirou profundamente no meu colo. Estava me pedindo para deixa-la descansar, queria a minha aprovação, a minha compreensão, a minha benção e eu te dei. Com o coração estraçalhado, eu te libertei, te disse que estava tudo bem, que você podia descansar. Com as mãos em você, sussurrei baixinho palavras de amor, de gratidão, de admiração por sua coragem, sua valentia, sua enorme luta pela vida. Cada vez que eu falava alguma coisa, você batia o rabinho no chão me dizendo que estava pronta. Conversei com o Universo, conversei com São Francisco de Assis, conversei com o processo da vida, conversei comigo mesma, com o céu, a terra e o Deus dos gatos.

Te ajeitei na sua casinha, te olhei nos olhos pela última vez, te dei um beijinho de boa noite, me despedi e fui para a cama dormir num travesseiro de lágrimas. Você anoiteceu e não amanheceu mais. Deixou para mim umas bolinhas de presente na sua caixa de areia, seu jeitinho especial de me agradecer também. Foi descansar com os gatinhos do céu.

Hoje guardei suas coisas. Arrumei um lugar para colocar sua casinha onde alguém escreveu seu nome errado. Botei suas cobertas para lavar. Acomodei sua vitamina dentro do armário e todas as seringas também. As canecas que usei para te alimentar foram para a máquina de lavar louça, sua garrafinha de água gelada com um bilhete ‘água dos gatos’ colado nela foi para a pia e as vasilhas de comida agora serão dos outros gatos da casa.

A Olívia voltou. O Haroldo continuou. O Nestor se manteve do lado de fora do círculo de amizades felino.

Sua passagem por minha casa foi curta, mas foi profunda e intensa. Você era filha do meu filho e eu era, então, sua avó-mãe. Eu te amei muito e sei que meu luto ainda vai durar um pouco. É que a cabeça prega algumas peças na gente e de repente a gente se lembra.

Mas quero te dizer uma coisa que está queimando meu peito: gratidão. Por cada um dos momentos que passamos juntas, por aceitar meu amor e carinho e por não me morder nem arranhar em todas as vezes que tive que te convencer a comer, segurando sua cabeça em minhas mãos e enfiando uma seringa entre seus dentinhos afiados. Gratidão por me ensinar a amar a vida, independentemente de mudanças, de quedas, de desafios, de dificuldades. Gratidão por ter chegado até mim e ter passado os últimos meses de suas sete vidas, e você usou todas elas, ao meu lado.

Escrever tudo isso é ao mesmo tempo cura e celebração. Para mim. Para você.

Tchau, Bonnie ♥. Descanse em paz.

Miau.

Tina Zani

Obrigada por ler meu blog. Se você gosta do que escrevo, pense em comprar meu livro 😀

Descabelando-se Entre Penteadinhos

 

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