aquela que mora ao lado
arquivo pessoal

 

É que de repente tudo parece que sumiu, aquilo tudo que estava me apertando o peito e me brotando uma raiva profunda, um ódio quase palpável, um amargor na língua e nos olhos que não me deixou ver as árvores nem as pedras nem as aves do caminho. É que bem agora, nesse momento que resolvi falar, a garganta que estava seca e arranhada de arame parece que tem chocolate escorrendo fondue de morango e aquelas coisas horrorosas que eu queria dizer submergiram num caldo doce e pastoso derramado por cima delas. Ah, bem agora, que eu podia falar tudo, que eu podia despejar todo aquele abacaxi amassado com gotas de limão, as coisas ficaram macias e suaves, tão suaves que nem as consigo sentir mais. Bem agora que eu tenho você aqui para me ouvir, assim, tão parada na minha frente, me olhando, me esperando, palavra nenhuma me ocorre para descrever o que eu tinha pra contar e no lugar de palavras na cabeça só tem algodão branco de nuvem, pra eu agora deitar e descansar daquela tensão, daquela obsessão, de toda ansiedade que me deu náusea e vontade de vomitar, que me tirou a fome, me deu sono sem conseguir dormir. Bem agora eu não sei aonde tudo foi parar, em que canto escuro do meu corpo tudo foi se esconder, dentro de qual porta, atrás de qual armário, para sair de repente, quando eu não quiser, e me assustar de novo, me pegar desprevenida, apertar meus pulmões e obstruir minhas veias, meus vasinhos mais minúsculos. Bem agora virou tudo fantasma voando transparente, deixando ver outras coisas por trás de véus iludidos, parecendo tudo tão bonito e tranquilo, cortina de renda balançando na brisa. Ah, como eu queria te contar, te falar o que passei à flor da pele, o que senti no parado do tempo que não andava, empacado, atolado na lama dos meus sentimentos mais pegajosos, colados aos meus pensamentos com Super Bonder para não despregar nunca mais, até chacoalhando a cabeça, até apertando os olhos, até correndo o mais rápido que conseguisse, até ficando bem quietinha para não ouvir o que eles estavam gritando com chicote de couro afiado nas mãos venenosas. Veneno. Um veneno que impregnou a vida e pintou tudo de um preto só, sem deixar ar para respingar. E minha mão apertando a outra, os dentes de cima mordendo os de baixo. Queria derreter e virar poça de água no chão dentro da Terra. Queria um guindaste do céu com uma pinça na ponta que me retirasse da paisagem. Queria uma chuva que me lavasse e me dissolvesse e eu pudesse evaporar e então tudo fosse silêncio e vazio infinitos. Ah, se você pudesse ver as larvas que comiam a minha carne viva debaixo do esterno. Sim, havia larvas me comendo o peito sangrando mas ele ainda pulsava. Era isso que me dava náuseas, era esse nojo das larvas esburacando a carne, entrando e saindo, caindo pelos ocos cavernosos que abriam, fétidos, pútridos, úmidos, brilhosos. Era isso que me dava raiva, essa carne contaminada, a minha carne – tão querida, tão amada -, dilacerada, moída, picada e eu com ela, e ela em mim e eu queria jogar fora, queria arrancar à força, com as unhas, com as lágrimas, com a culpa. Queria não deixar as larvas aparecerem das profundezas, queria não ver, não ouvir, não saber, desexistir. Ah, como eu queria desexistir. Tão envergonhada. Eu queria me esconder bem encolhidinha atrás da poltrona da sala, onde se esconde o Nestor com medo de trovão. A cabeça entre os ombros, os joelhos no coração, eu ficaria ali, não precisava mais sair. Quem sabe eu virava um vaso de alho-poró.

Tina Zani

♥♥♥

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