reverdecer

a dor acometeu a barriga. dor na barriga, bem no meio, na linha do umbigo, de atravessado, de um lado a outro, indo da direita para a esquerda e, depois, escorregada na direção do ventre. a barriga fala sozinha. conversa em voz alta numa língua estranha, não consigo entender. o direito fala, o esquerdo responde. fica assim, nessa toada o dia inteiro e nada acontece, nenhum silêncio, nenhuma conclusão. a conversa infinita e a dor atravessada. sutil e constante. desconfortável.

o corpo se deita. estica, espreguiça, descola a pele das costelas, escorrega os ossos sobre as costas, aproxima os ísquios, entorna a bacia e abre a virilha. colágeno. a ponta dos pés na parede, a ponta das mãos na janela e o esqueleto no meio, encompridando, descerra os vãos das emendas, as articulações, os poros. ouço o som dos tendões esticados como cordas de violão. eles tocam e a música sai pelos ouvidos, ecoa nos óculos de aro vermelho na frente dos olhos. a lente está suja, é difícil limpar a gordura que se acumula no vidro.

sexta-feira chorei de manhã, depois chorei à noite. a morte é um pensamento. interessante, faz a gente lembrar. traz o passado, aproxima o corpo do pó, desfoca a paisagem. o corpo responde.

não é preciso morrer para morrer.

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