era uma vez, uma pera.

penso no meu útero
quando olho a única pera guardada entre as maçãs na gaveta da geladeira
(que não limpo há seis meses)

o útero
é um órgão do aparelho reprodutor das
fêmeas de quase todos os
mamíferos, inclusive os humanos. é um espaço
de energia yin, uma
cavidade oca no corpo, uma
pera invertida que tem o tamanho de um punho fechado,
escuro e morno.

outro dia
fiz uma TMC – minha mãe falou pra eu não
tomar o contraste mas
eu tomei.
ouvi o líquido entrando no corpo pela veia do
braço direito passando perto
do ouvido direito e bem
no centro da testa do pescoço
até a púbis esquentar.
a máquina falava:
encha os pulmões de ar
segure
pode soltar.

a Adriana Lisboa tem um poema sobre a
vida íntima de uma
menina de dez anos na Somália é cortada costurada pra ser
cortada de novo.
a Adriana diz que a menina é cortada como se corta
uma fruta como se corta a aba de um envelope como o avião corta a nuvem como a nuvem corta o céu.
ela também diz que todo corte do mundo é o corte na menina de
dez anos na Somália.

a pera é uma fruta na gaveta da geladeira.
quando olho para a pera penso
no meu útero.
não vou cortá-la.
deixo que se abra sinceramente.

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