às vezes fica tudo muito claro

entra,
repara bem os espaços, os vãos, as janelas que são portas. a sala é escura, mas tem uma
claraboia em triângulo perto do telhado. é uma casa viva, que se expande como pulmões se
cheia de ar.
quando a casa é grande, o corpo se alarga.

há elásticos por toda parte, do solo ao teto e às paredes, nos rodapés que não existem e nas
rachaduras principalmente – são muitas, emendadas com massa corrida e tinta fresca. é a
casa. é grande e pode se expandir.

o corpo que a habita está contido em suas entranhas. como um útero prestes a parir, ele
lateja, dilata, dói, contrai
e contrai e contrai e contrai. tem algo para expelir, acomodado tão profundamente na pelve a
ponto de causar cãibras e uma vontade constante de fazer xixi. o corpo está selado. há uma
substância pegajosa que o tampona. a bolsa quer se romper, quer derramar a água quente,
deixar escorrer pelas pernas, afogar o mundo e
por isso dói.

devia afrouxar a púbis devagarinho, afastar os ísquios, flexionar os joelhos
deixar tombar as coxas para fora,
mas o devagarinho é um espaço que demanda toda atenção para se cumprir.

o corpo está deitado na cama.
escreve com o p.c. apoiado numa almofada sobre o ventre.

paro um pouco para ler as páginas do caderno e, nessa pausa, o p.c. pulsa. vejo seu
movimento, miúdo, sutil, um bombear silencioso acima e abaixo.
me espanto:
é o pulsar do ventre que move o p.c..

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