às vezes fica tudo muito claro

entra,
repara bem os espaços, os vãos, as janelas que são portas. a sala é escura, mas tem uma
claraboia em triângulo perto do telhado. é uma casa viva, que se expande como pulmões se
cheia de ar.
quando a casa é grande, o corpo se alarga.

há elásticos por toda parte, do solo ao teto e às paredes, nos rodapés que não existem e nas
rachaduras principalmente – são muitas, emendadas com massa corrida e tinta fresca. é a
casa. é grande e pode se expandir.

o corpo que a habita está contido em suas entranhas. como um útero prestes a parir, ele
lateja, dilata, dói, contrai
e contrai e contrai e contrai. tem algo para expelir, acomodado tão profundamente na pelve a
ponto de causar cãibras e uma vontade constante de fazer xixi. o corpo está selado. há uma
substância pegajosa que o tampona. a bolsa quer se romper, quer derramar a água quente,
deixar escorrer pelas pernas, afogar o mundo e
por isso dói.

devia afrouxar a púbis devagarinho, afastar os ísquios, flexionar os joelhos
deixar tombar as coxas para fora,
mas o devagarinho é um espaço que demanda toda atenção para se cumprir.

o corpo está deitado na cama.
escreve com o p.c. apoiado numa almofada sobre o ventre.

paro um pouco para ler as páginas do caderno e, nessa pausa, o p.c. pulsa. vejo seu
movimento, miúdo, sutil, um bombear silencioso acima e abaixo.
me espanto:
é o pulsar do ventre que move o p.c..

era uma vez, uma pera.

penso no meu útero
quando olho a única pera guardada entre as maçãs na gaveta da geladeira
(que não limpo há seis meses)

o útero
é um órgão do aparelho reprodutor das
fêmeas de quase todos os
mamíferos, inclusive os humanos. é um espaço
de energia yin, uma
cavidade oca no corpo, uma
pera invertida que tem o tamanho de um punho fechado,
escuro e morno.

outro dia
fiz uma TMC – minha mãe falou pra eu não
tomar o contraste mas
eu tomei.
ouvi o líquido entrando no corpo pela veia do
braço direito passando perto
do ouvido direito e bem
no centro da testa do pescoço
até a púbis esquentar.
a máquina falava:
encha os pulmões de ar
segure
pode soltar.

a Adriana Lisboa tem um poema sobre a
vida íntima de uma
menina de dez anos na Somália é cortada costurada pra ser
cortada de novo.
a Adriana diz que a menina é cortada como se corta
uma fruta como se corta a aba de um envelope como o avião corta a nuvem como a nuvem corta o céu.
ela também diz que todo corte do mundo é o corte na menina de
dez anos na Somália.

a pera é uma fruta na gaveta da geladeira.
quando olho para a pera penso
no meu útero.
não vou cortá-la.
deixo que se abra sinceramente.

reverdecer

a dor acometeu a barriga. dor na barriga, bem no meio, na linha do umbigo, de atravessado, de um lado a outro, indo da direita para a esquerda e, depois, escorregada na direção do ventre. a barriga fala sozinha. conversa em voz alta numa língua estranha, não consigo entender. o direito fala, o esquerdo responde. fica assim, nessa toada o dia inteiro e nada acontece, nenhum silêncio, nenhuma conclusão. a conversa infinita e a dor atravessada. sutil e constante. desconfortável.

o corpo se deita. estica, espreguiça, descola a pele das costelas, escorrega os ossos sobre as costas, aproxima os ísquios, entorna a bacia e abre a virilha. colágeno. a ponta dos pés na parede, a ponta das mãos na janela e o esqueleto no meio, encompridando, descerra os vãos das emendas, as articulações, os poros. ouço o som dos tendões esticados como cordas de violão. eles tocam e a música sai pelos ouvidos, ecoa nos óculos de aro vermelho na frente dos olhos. a lente está suja, é difícil limpar a gordura que se acumula no vidro.

sexta-feira chorei de manhã, depois chorei à noite. a morte é um pensamento. interessante, faz a gente lembrar. traz o passado, aproxima o corpo do pó, desfoca a paisagem. o corpo responde.

não é preciso morrer para morrer.

de manhã

um sabiá cantando ali na árvore – lembrança das tardes mornas que passava, com a casa vazia e silenciosas, quando todos ainda iam para a escola.
de manhã, rego as plantas e dou bom dia para os cachorros, mas ontem os passarinhos vieram tomar banho na água do meu esguicho. primeiro um, depois mais um, depois vários outros, pequenos e alegres, se esfregando nas gotinhas que choviam para as plantas. hortelã, manjericão, amora, erva-cidreira, babosa, boldo, ora-pro-nobis, alecrim. a terra. sempre pronta para brotar, haja água, semente e sol.

meio mar: vídeo-poema


uma substância meio lisa
no corpo
 
que se delonga nas entrelinhas
do poema
 
que tenho entre os dedos
uma substância que chega em ondas
 
nas veias
como soro feito de água e sal que se bebe depois do porre e dissolve
 
tanto álcool quanto seiva
até sobrar mais nada que
 
uma substância meio mar
uma substância do tamanho que envolve a
 
negra noite estrelada quando espelha nas águas o
mar
 
uma substância insolente
uma substância despudorada
 
uma substância corpo
que me entorna aos goles ainda morna pelas linhas do poema e
 
as folhas brancas dobradas no canto superior direito
uma substância planta uma
 
substância viva uma substância fresca
uma substância fértil
 
uma substância que sendo fértil concebe o
que de dentro se derrama
 
quando a última folha se solta e o que sobra é um corpo
sem folhas um corpo substância e
 
as linhas e entrelinhas escorregadas para o chão abandonam o texto
quando poema e corpo se encontram.

maya

a aranha tece uma teia
a teia da aranha é toda tecida de fios de seda brancos
ela tece uma teia branca.
a teia é feita de vazios
a aranha amarra os vazios com fios de seda brancos
a teia tem vazios emaranhados em fios de seda
os vazios ficam presos na teia
a teia envolve os vazios nos fios
os vazios são pequenos orifícios na seda branca da aranha
ela desenha os vazios com seda no ar
dentro dos vazios tem ar e tem o outro lado
os vazios da teia são vãos que deixam ver o outro lado
a seda desenha o outro lado em pequenos vazios por onde se olha
o outro lado aparece para o olho de quem olha pelo vazio da teia
pelo vão do desenho da seda branca da aranha
quem olha a teia não vê o vazio o ar o outro lado
só vê a teia
a teia encanta o olho de quem olha
às vezes a teia tem uma gota de orvalho e a gota brilha na luz
o olho olha o brilho da gota e esquece a teia e o vazio e o ar e o outro lado
o olho fica preso no brilho da gota da teia fica iludido pela gota de orvalho
o olho pensa que o brilho é a gota e quer se embeber de luz
o olho se esforça para se embeber da luz que a gota brilha
não vê a teia
não vê o vão
não vê o ar
não vê o outro lado porque está encantado iludido enganado pelo brilho da gota de orvalho
a teia branca cheia de vãos com gotas que brilham forma um lindo desenho depois da chuva
o olho gosta do que é lindo
o olho quer caber no lindo, quer que o lindo queira o olho olhando
para o olho ter sentido de olhar
a teia da aranha é o véu na frente do olho
o olho fica deslumbrado com o véu
o véu deixa o olho nublado
o olho não consegue ver o outro lado o vazio o vão o ar
a teia da aranha deixa o olho emaranhado.


outono

outono

— silêncio

vento frio na cara no pescoço

pés que não querem sapatos

o corpo  — não quer sair dos lençóis

 

meus olhos lacrimejantes

na roupa seca do varal

 

seco

o ar  — seca

garganta seca

seco

o sol que não (quer) esquenta(r)

 

o corpo

embriagado de ar  — tanto ar —

pra dentro, pra fora —

cresce com a lua

até ficar cheio

e derramar.

*

*

*

então eu

*

me visto de árvore.

 

Tina Zani

 

 

água. fluida, água. á-gua. cristalina, transparente, brilhante, líquida. água líquida. escorre, vaza, derrama, pinga, vai. água. á-gua. de beber, de lavar, de banhar, de mergulhar. água doce, rio. água salgada. cristais de sal. água. á-gua. líquida. fluida. molha, alaga, encharca, represa. molhada — água. á-gua. água vem, água vai. espuma, onda. mar. água de boiar. de navegar, de flutuar. água. á-gua. preenche, escapa, limpa, hidrata. água sobre as pedras, água na terra. cheiro de terra. água da chuva, da enxurrada, da cachoeira, do ribeirinho. charco. açude. água na calha, pinga no chão. pinga na sala, em cima da mesa, no quarto na cama. água penetra. enchente, vazante. água que brota das pedras, dos olhos, dos poros, da vulva. água quente. água limpa. no corpo, a água. á-gua. de nadar, de afogar, de devolver pra terra, do mar. aguavêrde, aguazúl, aguamarrôm, aguamarínha. barco onda peixe pedra. água. da torneira. na bacia, no tanque, na descarga. água na boca, no útero, gestação. água da bolsa. parto. copo de água. á-gua. do lago. alagado. poça. da fonte, do chafariz, cuspe. pra cima. a água brilha (o sol reluz). a água. pote de água. regador. lubrifica, amolece, enruga os dedos. imersão. uma gota, um gole. água.