maya

a aranha tece uma teia
a teia da aranha é toda tecida de fios de seda brancos
ela tece uma teia branca.
a teia é feita de vazios
a aranha amarra os vazios com fios de seda brancos
a teia tem vazios emaranhados em fios de seda
os vazios ficam presos na teia
a teia envolve os vazios nos fios
os vazios são pequenos orifícios na seda branca da aranha
ela desenha os vazios com seda no ar
dentro dos vazios tem ar e tem o outro lado
os vazios da teia são vãos que deixam ver o outro lado
a seda desenha o outro lado em pequenos vazios por onde se olha
o outro lado aparece para o olho de quem olha pelo vazio da teia
pelo vão do desenho da seda branca da aranha
quem olha a teia não vê o vazio o ar o outro lado
só vê a teia
a teia encanta o olho de quem olha
às vezes a teia tem uma gota de orvalho e a gota brilha na luz
o olho olha o brilho da gota e esquece a teia e o vazio e o ar e o outro lado
o olho fica preso no brilho da gota da teia fica iludido pela gota de orvalho
o olho pensa que o brilho é a gota e quer se embeber de luz
o olho se esforça para se embeber da luz que a gota brilha
não vê a teia
não vê o vão
não vê o ar
não vê o outro lado porque está encantado iludido enganado pelo brilho da gota de orvalho
a teia branca cheia de vãos com gotas que brilham forma um lindo desenho depois da chuva
o olho gosta do que é lindo
o olho quer caber no lindo, quer que o lindo queira o olho olhando
para o olho ter sentido de olhar
a teia da aranha é o véu na frente do olho
o olho fica deslumbrado com o véu
o véu deixa o olho nublado
o olho não consegue ver o outro lado o vazio o vão o ar
a teia da aranha deixa o olho emaranhado.


outono

outono

— silêncio

vento frio na cara no pescoço

pés que não querem sapatos

o corpo  — não quer sair dos lençóis

 

meus olhos lacrimejantes

na roupa seca do varal

 

seco

o ar  — seca

garganta seca

seco

o sol que não (quer) esquenta(r)

 

o corpo

embriagado de ar  — tanto ar —

pra dentro, pra fora —

cresce com a lua

até ficar cheio

e derramar.

*

*

*

então eu

*

me visto de árvore.

 

Tina Zani

 

 

água. fluida, água. á-gua. cristalina, transparente, brilhante, líquida. água líquida. escorre, vaza, derrama, pinga, vai. água. á-gua. de beber, de lavar, de banhar, de mergulhar. água doce, rio. água salgada. cristais de sal. água. á-gua. líquida. fluida. molha, alaga, encharca, represa. molhada — água. á-gua. água vem, água vai. espuma, onda. mar. água de boiar. de navegar, de flutuar. água. á-gua. preenche, escapa, limpa, hidrata. água sobre as pedras, água na terra. cheiro de terra. água da chuva, da enxurrada, da cachoeira, do ribeirinho. charco. açude. água na calha, pinga no chão. pinga na sala, em cima da mesa, no quarto na cama. água penetra. enchente, vazante. água que brota das pedras, dos olhos, dos poros, da vulva. água quente. água limpa. no corpo, a água. á-gua. de nadar, de afogar, de devolver pra terra, do mar. aguavêrde, aguazúl, aguamarrôm, aguamarínha. barco onda peixe pedra. água. da torneira. na bacia, no tanque, na descarga. água na boca, no útero, gestação. água da bolsa. parto. copo de água. á-gua. do lago. alagado. poça. da fonte, do chafariz, cuspe. pra cima. a água brilha (o sol reluz). a água. pote de água. regador. lubrifica, amolece, enruga os dedos. imersão. uma gota, um gole. água.

je croyais que tes yeux étaient bleus, mais non, ils sont verts. j’ai découvert ce jour là que je t’ai vu (de perto) et tes cheveux. e aquele sorriso que você me deu, só pra mim, que sorriso foi esse? não me esqueço. às vezes ele me volta. me move. me mexe. me inspira. me excita. me poesia. ils sont verts, tes yeux. j’adore t’entendre et te voir tes yeux verts.

 

vinho

eu. só eu. eu e eu e o vinho. momento de volatilizar bordô. violeta, cor de maravilha. é hora de levantar, de levitar de saudar a vida o amor o calorzinho quente que desliza nas veias, sob a pele, por entre os pelos cabelos e capilares. esse é o momento. o instante vivo, vermelho vivo e líquido, do vinho. esse é o momento. e eu podia ter sorrido em retorno. devia ter sorrido.

Tina Zani

não tenho sono. pego caderno e caneta e espero. hoje, passei o dia em poesia e calor. concordo com a Sedevich: escritor fala de si, mesmo quando não fala.

tenho um muso. um muso fecunda a vida, fertiliza as palavras, escancara as possibilidades. fico criativa. fico grávida de ideias. fico terna, gostosa, quentinha. sobe um rio viscoso e cintilante da vulva até as narinas. me sinto delirante.

Tina Zani

no vento dessa tempestade, vejo seu rosto.

tenho dedos de papel. vermelhos e sem ponta.

quase arranco essa calcinha que me aperta a virilha.

de pé, em frente à porta, deixo o vento virar as folhas do caderno. me arrepio. o céu ficou escuro, vai chover.

pego a caneta e não sei escrever. de dentro, sinto desejos — sinto-os todos pelo papel e pelas paredes brancas. o verso que não quer sair de mim é branco também. há nuvens de chuva no céu — alguns pingos estalados aqui e ali — e o som redondo do ventilador ventando no teto. não tem ninguém. aqui não tem. ouço aves lá fora, lá longe, lá grande onde não alcanço — só os ouvidos. estou parada. meu corpo está parado. meus pés estão em silêncio, descalçados, em cima do chão. não me movo.