o lanche da Juju

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Quando eu era pequena gostava de assistir a uma série que se chamava O Homem do Fundo do Mar. Contava a história de um cara que não podia ficar muito tempo longe da água, pois sua pele ressecava e corria o risco de morrer. Ele era um tipo de anfíbio, eu acho. Entre seus dedos das mãos e dos pés havia peles que faziam seus membros funcionarem como eficientes nadadeiras. Seus olhos eram muito, muito verdes e eu ficava me imaginando ser como ele para poder namorá-lo.

Eu adoro o mar.

Depois, mais tarde, tive que ler para a escola um livro que se chamava O Menino do Dedo Verde. Era sobre um menino que tinha o poder encantador de fazer nascer uma plantinha onde quer que ele enfiasse seu dedo. Algo parecido com a história do rei Midas que transformava tudo em ouro e acabou, sem querer, tirando a vida de muitas pessoas com quem convivia. Mas no caso do Menino do Dedo Verde isso acontecia às avessas, pois ele, ao contrário de Midas, fazia surgir a vida! Eu ficava me imaginando ser como ele também. Nós dois juntos faríamos florir o asfalto e criaríamos bosques e jardins nas ruas da cidade.

Eu sempre quis ser diferente. Acho que foi por isso, então, que não estranhei quando a primeira folha brotou, frágil e delicada, bem no meio do meu umbigo. Era tão pequenina que quase não dava para ver, mas com o passar das semanas, e os banhos que eu tomava, foi crescendo e aparecendo. Em pouco tempo já não podia mais esconde-la na camiseta, e outras folhinhas apareceram em outras partes do meu corpo: no ouvido direito, atrás do joelho esquerdo, embaixo da unha do dedão do pé direito.

Embora eu estivesse feliz com todos esses brotos se enroscando de mim para mim, acabei virando o centro das atenções em minha casa e na escola. Passei a ser conhecida como a menina que tem o broto na barriga. As pessoas me achavam bizarra.

Certa manhã, ao acordar, senti um cheiro diferente no meu quarto. Algo muito sutil e adocicado. Pelo chão, ao redor da minha cama, havia pequenas coisinhas amarelas esparramadas. Eu estava sem os óculos e não consegui identificar o que eram. Levantei depressa para pegá-los em cima da mesa e acabei quebrando um vidro da janela com o galho do meu ouvido direito, que já estava bem grande. Ai, doeu. No instante em que botei os óculos entrou um beija-flor.

Eu estava florindo…

Minha mãe também entrou no quarto com cara de poucos amigos. Não gostou nada do que viu. Irritada, me mandou parar com tanta bizarrice e argumentou que não aguentava mais me ver inventando moda. Quando eu abri a boca para falar, percebi que cantava que nem passarinho. Minha mãe ficou furiosa. Além de tudo, eu agora só abria a boca para cantar. Com os nervos à flor da pele, vermelha que nem um pimentão, começou a fuçar no meu estojo que estava na escrivaninha. Durante alguns minutos me perguntei o que ela procurava ali. Fosse o que fosse, encontrou rapidinho e veio pisando duro em minha direção.

Com minha própria borracha molhada em seu cuspe raivoso, ela apagou um por um os meus brotinhos. A última coisa que vi foi uma Maria Joana vermelha que fugiu assustada pela janela.

Quando terminou, saiu bufando e bateu a porta atrás de si. Respirei fundo e recolhi as flores do tapete.

Ainda bem que ontem teve semente de girassol no lanche da Juju.

Tina Zani

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Descabelando-se Entre Penteadinhos

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samba-canção

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Esta canção não é mais que mais uma canção. Sai dos teus lábios de mel, de Iracema. Uma canção para cantar em dias de amor e em dias de paz. Canção de amar. Os lábios macios, vermelhos e úmidos, tão clichês que já cansei. Mas é deles que vem essa canção adocicada para descansar os ouvidos: samba-canção xadrez. Meu coração desligado, está com música nos capilares. Cada frase que escrevo traz um pedaço de letra. Meus lábios fechados deixam a música escorrer para os dedos e virar canção no papel.

Ouve! Ouço o gato beber água com a língua enrolada e, ao fundo, o relógio de parede que vai dar suas badaladas.

Os lábios ainda quietos, se movem num sorriso, mas a canção muda já riscou o papel com tinta preta da ponta da caneta. Quem quiser, pode chegar e a música começar, que dos lábios desse poeta só saem palavras escritas e beijos apaixonados. Canção, que é bom, dobrou a esquina e está na boca da menina. E, no fim, tudo virou rima.

Começou bem e acabou mais ou menos, porque não precisa de rima quando a canção vem de dentro. De dentro vem o sentimento que dá cor ao mundo, movimenta o ar, irriga o chão e faz o lábio fechado deslizar para o lado.

Caramba, alguém me salva dessa rima insistente que impregnou minha mente e não me deixa falar sem combinar.

Acho que preciso vomitar. Quem sabe assim, botando o que está dentro para fora pela goela, garganta e campainha, liberto a rima das palavras e faço uma canção que não precise de música para ligar a boca ao coração.

Aff, desisto!

Desse jeito, vou rimar travesseiro com colchão e dormir enroladinha. E bem agora, que eu queria uma rima para terminar, não vem nenhuma na ideia. Só consigo pensar no porco espinho de collant listrado que ontem vi pendurado na parede da casa da Fernanda.

Tina Zani

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Descabelando-se Entre Penteadinhos

carta à Bonnie

carta à Bonnie
arquivo pessoal

Você chegou num dia quente de dezembro. Pequena, orelhuda, parecia mais um rato peludo do que um gato.

Tomou conta da casa como se fosse sua, ignorando os direitos dos outros gatos que já moravam aqui muito antes de você.

Botou ordem no pedaço. Decidiu quem podia ficar e quem teria que ir passear na chácara. Movimentou toda a família até conseguirmos resolver o seu problema com a água: tinha que ser gelada, de preferência com uma pedrinha de gelo boiando dentro e precisava estar em uma vasilha de cerâmica em cima de um banquinho no canto da cozinha, bem ao lado da geladeira, ou você se recusava a beber.

Era brava, muito brava. Botou o Nestor no lugar dele: do lado de fora do seu círculo de amizades felinas.

Resolveu que dormiria em cima do balcão da sala e ninguém conseguiu te demover desta ideia.

Gostava de ‘carninha’ e fazia coro com o Haroldo para me convencer a servir-lhes um sachê todas as manhãs. Fez bullying com a Olívia. Montava guarda na porta da cozinha para não deixa-la entrar em casa.

Era conversadora e tinha o miado mais doce que eu já ouvi na vida. Saía como um sopro suave de dentro do peito. Às vezes longo, às vezes curto, às vezes só um ponto de exclamação.

Não gostava de ficar sozinha, nem de ficar quieta. Embora fosse a mais nova da casa, se comportava como uma velhinha coroca cheia de hábitos e manias, meio ranzinza, fazendo fofoca.

Foi no sábado de carnaval que você silenciou. Começou assim, não miando, não conversando, sem assunto para me contar. Botei a carninha, mas você nem se interessou. Deu apenas umas lambidas tímidas e deixou tudo para o Haroldo. Coisa inédita, jamais havia acontecido antes.

Ficou quieta, parada, amuada, com seus olhinhos amarelos olhando para o nada.

Te levei ao médico e chorei em bicas abraçada com você em cima da mesa gelada do consultório. Foram seis dias consecutivos de amor intenso no meu coração, nas minhas mãos que te acarinhavam, alimentavam, hidratavam, medicavam, nos meus olhos que te olhavam e transbordavam, na minha voz te conversando, te confortando, te incentivando, te elogiando a cada seringa de água e comida que você tomava. Seis dias que te cuidei de hora em hora, te abracei forte, te segurei em meus braços, encostei meu nariz no seu focinho pequenino, rocei meu rosto na sua cabecinha macia.

Você tomou injeção todos os dias, tomou soro, vitamina, remédio. Parecia que ia reagir. Voltou a subir no balcão e chegou a ir passear na chácara, mas no sexto dia o cansaço te alcançou e você suspirou profundamente no meu colo. Estava me pedindo para deixa-la descansar, queria a minha aprovação, a minha compreensão, a minha benção e eu te dei. Com o coração estraçalhado, eu te libertei, te disse que estava tudo bem, que você podia descansar. Com as mãos em você, sussurrei baixinho palavras de amor, de gratidão, de admiração por sua coragem, sua valentia, sua enorme luta pela vida. Cada vez que eu falava alguma coisa, você batia o rabinho no chão me dizendo que estava pronta. Conversei com o Universo, conversei com São Francisco de Assis, conversei com o processo da vida, conversei comigo mesma, com o céu, a terra e o Deus dos gatos.

Te ajeitei na sua casinha, te olhei nos olhos pela última vez, te dei um beijinho de boa noite, me despedi e fui para a cama dormir num travesseiro de lágrimas. Você anoiteceu e não amanheceu mais. Deixou para mim umas bolinhas de presente na sua caixa de areia, seu jeitinho especial de me agradecer também. Foi descansar com os gatinhos do céu.

Hoje guardei suas coisas. Arrumei um lugar para colocar sua casinha onde alguém escreveu seu nome errado. Botei suas cobertas para lavar. Acomodei sua vitamina dentro do armário e todas as seringas também. As canecas que usei para te alimentar foram para a máquina de lavar louça, sua garrafinha de água gelada com um bilhete ‘água dos gatos’ colado nela foi para a pia e as vasilhas de comida agora serão dos outros gatos da casa.

A Olívia voltou. O Haroldo continuou. O Nestor se manteve do lado de fora do círculo de amizades felino.

Sua passagem por minha casa foi curta, mas foi profunda e intensa. Você era filha do meu filho e eu era, então, sua avó-mãe. Eu te amei muito e sei que meu luto ainda vai durar um pouco. É que a cabeça prega algumas peças na gente e de repente a gente se lembra.

Mas quero te dizer uma coisa que está queimando meu peito: gratidão. Por cada um dos momentos que passamos juntas, por aceitar meu amor e carinho e por não me morder nem arranhar em todas as vezes que tive que te convencer a comer, segurando sua cabeça em minhas mãos e enfiando uma seringa entre seus dentinhos afiados. Gratidão por me ensinar a amar a vida, independentemente de mudanças, de quedas, de desafios, de dificuldades. Gratidão por ter chegado até mim e ter passado os últimos meses de suas sete vidas, e você usou todas elas, ao meu lado.

Escrever tudo isso é ao mesmo tempo cura e celebração. Para mim. Para você.

Tchau, Bonnie ♥. Descanse em paz.

Miau.

Tina Zani

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