avô, avó

avô
arquivo pessoal

Moravam na casa a avó, o avô, a cachorra preta que era nova e a branca com pintinhas que já era bem velhinha e mal conseguia se levantar. Também moravam muitos passarinhos soltos, que os avós alimentavam com alpiste no chão e frutas na floreira todas as manhãs.
A avó era arrumadinha, organizada, prática, objetiva e muito inteligente. Tinha cabelos longos e loiros e nenhum fio branco, porque tinha conversado com suas raízes quando era jovem. E olha que já estava perto dos setenta.
O avô era engraçado, alegrão, falador, divertido e muito inteligente também, como a avó. Tinha os cabelos bem branquinhos e uma barriga que não queria, mas estava lá. Nos últimos anos, tinha começado a puxar a perna, mas continuava fanfarrão.
A casa era grande e nova. Haviam se mudado recentemente. Os dois tinham uma ajudante sorridente e meio doidinha, que ajudava direitinho – embora, algumas vezes, deixasse a avó com os cabelos em pé.
De vez em quando o avô aprontava alguma. Não conseguia se conter. Ainda mais quando havia algum neto – que eles tinham onze – ali por perto.
Um dia, levou dois deles para o cinema. Quando a luz apagou e o filme começou, tirou da bolsa uma máquina de fazer pum barulhento e ficou peidando o filme todo, para desespero dos netinhos, que queriam sumir debaixo das poltronas.
Outra vez, comprou umas máscaras de carnaval horrorosas e saiu assustando as crianças pela casa. Depois, levou todo mundo para jantar num restaurante chique, só para poder assoprar chá com canudinho na cara de cada um.
A última que aprontou foi a rampa. Os dois, avô e avó, decidiram que era melhor terem uma rampa na casa nova para que as pessoas mais velhinhas e debilitadas não precisassem descer as escadas – que eram muitas. Escolheram um dos corredores laterais de entrada da casa, contrataram um carpinteiro e cobriram os degraus com ripas de madeiras de ponta à ponta. O avô achou que tinha ficado um excelente tobogã e, assim que os netos se reuniram de novo em sua casa, botou a criançada para escorregar. Foi divertido, mas saíram todos esfolados.
A avó não achava graça nenhuma, mas a maluquice do avô não era de hoje. Muito antes de ser avô, quando o avô era só pai, ele já fazia umas coisas estranhas.
Tipo o dia que foi tomar banho com o filho e teve uma ideia brilhante para fazer uma brincadeira. Segurou-o de ponta-cabeça pelos tornozelos e encostou seus pezinhos no chuveiro. Só que o chuveiro era elétrico. Os dois tomaram o maior choque e o filho saiu chorando.
Ou aquela vez que eles estavam no clube e o amigo também tinha um filho da mesma idade e havia um trampolim na piscina. O amigo saltou do trampolim com o filho nos ombros e o avô não quis deixar por menos e fez igual, só que quase morreu afogado porque não conseguia voltar lá do fundo. Teve que ser resgatado e, por pouco, não afogou o filho também.
Mas hoje ele fez algo bem diferente. Deu um susto na avó.
Faz uma semana que o avô resolveu fazer uma dieta para acabar de uma vez por todas com a barriga. Contratou uma profissional expert e não sai mais de casa para poder fazer as nove refeições na hora certa e do jeito certo. A avó, que tem rodinhas nos pés, saiu para sassaricar por aí. Quando voltou, encontrou primeiro a ajudante doidinha – mas que ajuda direitinho – e foi logo perguntando do avô.
A ajudante disse que ele tinha almoçado, tinha ido lá para o quintal e não tinha voltado nunca mais. A avó correu para ver o que havia acontecido, chamando alto. Ele não estava na varanda, nem na piscina, nem na churrasqueira, nem na rede, nem na cadeira de balanço, nem no jardim, nem atrás do coqueiro, nem em cima da escada e nem escorregando na rampa, mas ela ouvia a sua voz bem baixinha, vinda de algum lugar.
Depois de muito procurar, foi encontra-lo caído, esticado, estatelado de costas no chão, olhando o céu, dentro do canil.
A avó ficou desesperada. Tinha passado mal? Tinha escorregado? Tinha desmaiado? Tinha desvivido?
Nana nina não, nada disso. Estava só batendo um papo com a cachorra branca de pintinhas, que já era bem velhinha e mal conseguia se levantar.

Tina Zani

♥♥♥

P.S.: a cachorra branca de pintinhas, nossa querida Pintada, uma Dog Alemã que era uma lady, morreu de velhinha há poucos meses atrás.

P.S.2: o avô, depois da dieta, não tem mais a barriga que não queria.

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ele °°°°°°

Ele vem quando você menos espera. Chega quando você está mais relaxada. Especialmente depois do almoço ou à noitinha, naquele silenciosinho gostoso, quando os músculos estão entregues e descontraídos, os olhos semicerrados, a mente se desconectando, você totalmente abstraída e, de repente, pá.
É assim mesmo, pá! Ele chegou. Curto e grosso, às vezes longo e sibilante, mas sempre invasivo, sempre afrontoso. Te tira lá de onde você estiver, lá de onde você quer ficar e traz de volta para cá, para a lucidez, para a vigília. Você quer fugir, mas ele não vai deixar, nana nina não.
Depois que chega, já era, não te abandona mais. Às vezes até parece que vai te dar um tempo, vai embora. Ameaça te deixar em paz, então você começa de novo o processo. Relaxa, descontrai os músculos, fecha os olhos, divaga a mente e, quando está quase totalmente desligada do mundo, pá! Ele volta e te surpreende. Às vezes até te assusta.
Você tenta se concentrar em algum pensamento, tenta prestar a atenção na sua respiração, tenta fazer um relaxamento progressivo e dirigido mentalmente, começando pelos pés, subindo pelas pernas, passando pela pélvis, tronco, braços e cabeça, mas é difícil de se focar. Ele te atrapalha, ele não te deixa sossegada. Finge que vai deixar, mas era só fingimento, cê acha! Ele volta com tudo e até te assombra.
Você vira de lado, experimenta ouvir uma música, liga o ventilador. Agora vai. Afofa o travesseiro e começa o processo outra vez, mas ele volta ainda mais presente, com tudo, com força, com vigor. Você não quer força nem vigor agora. Você quer preguiça e descanso. Mas ele insiste em te fazer mudar de opinião.
Você vira para o outro lado, toma um gole de água, levanta para fazer xixi, pega um livro para ler. Mas ele não quer ser ignorado. Ele não gosta de indiferença. Ele quer que você o repare, que preste atenção nele. Quer você só para ele, desperta, atenta, de olhos bem abertos e coração palpitando forte de ansiedade.
Você não aguenta mais a insistência. Você não está afim de ser complacente com tanta carência. Você quer exercer o seu direito à sua individualidade, ao seu pedaço de cama, à sua parcela de silêncio. Mas ele não dá o braço a torcer. É osso duro de roer e não vai ceder só porque você quer. Te importuna, te persegue, te irrita, te incomoda, te arranha.
Você lê a mesma linha do livro três vezes e ainda não consegue saber o que está escrito, porque ele está se comunicando com você sem parar. Não te dá uma trégua, não percebeu que você não está interessada e que seria melhor que ele sumisse e te deixasse em paz. Ele não quer te deixar em paz, não quer te deixar sossegada e na sua. Ele quer interagir, quer reação, quer assunto para discutir.
Horas já se passaram e você continua na mesma. E ele também. Não chegaram a um acordo. Não existe acordo para vocês. Nesse processo todo, você passou de relaxada-quase-entregue à incomodada, à inconformada, à frustrada, à irritada, à desesperada, à furiosa. Ele não. Ele se manteve o mesmo do começo ao fim. Ele sabe a que veio desde sempre. Seu objetivo é ser rei e ser ouvido e respeitado. Não vai abrir mão disso, nem adianta espernear e se descabelar. Ou, pior, nem adianta ameaça-lo com cutucadas, empurrões, broncas ou tentativas de semancol. Não, é esforço perdido. Ele pode até ceder por alguns minutinhos, surpreso com a sua reação, mas voltará firme e forte logo em seguida, aliás, mais firme e mais forte. E vai deixar bem claro para você que com ele não tem mimimi, os incomodados é que se retirem.
Ele é uma praga que você quer domar, combater ou exterminar. Ele não consegue se calar. Se você não se preparar, ele vai tirar seu sono, sem dó.

Ele, o ronco.

Tina Zani

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fui reprovada na entrevista para adotar um cãozinho abandonado

Houve um tempo em que eu e meu marido cuidávamos sozinhos de quatro crianças, cinco cachorros, três gatos e dois passarinhos. Era um tempo muito bom. Estávamos juntos no amadurecer da vida, no crescimento, na educação dos filhos, dos nossos bichinhos de estimação e de nós mesmos.

Mas o tempo passa e a vida vai em frente sem olhar para trás. Os filhos cresceram e começaram a sair de casa. Os bichinhos envelheceram e começaram a se despedir de nós.

Moro em uma casa com janelas, portas e rede na varanda, numa chácara gostosa e cheia de vida. Daqui se vê o sol nascendo e a lua aparecendo, as estrelas e as nuvens. As maritacas vêm visitar em bando, todas as manhãs e finais de tarde. Tem joão-de-barro, sabiá, bem-te-vi, pica-pau, coleirinha. Tem terra, grama, areia, árvore, flores, sombra, brisa, calor. Tem aranha, formiga, abelha, minhoca, lagartixa. Tem lagarto. Mas, acima de tudo, tem espaço, muito espaço. Espaço para ser, para existir, para exercer, para fazer e para não fazer também. E tem um espaço muito especial, o espaço de receber de braços abertos, de acolher, de respeitar as diferenças e de aprender juntos.

Nessa casa, tanto faz se você é adulto, criança, bichinho ou outra coisa qualquer, habitante, visita ou agregado, tem espaço pra você.

Não é uma casa perfeita, é apenas uma casa de verdade. Tem alguma bagunça, um pouco de poeira, tem roupas penduradas no varal e louça na pia quase sempre. Tem coisas por fazer e coisas que já deviam ter sido feitas. Mas tem calor humano e, tão longe da perfeição quanto mais perto da imperfeição, tem um lar e uma família que mora nela.

Há alguns meses, resolvemos adotar uma cadelinha sem raça definida. A nossa Pipoca já está velhinha, com mais de quinze anos, meio surda e sentindo a solidão da velhice, então achamos que uma criança na casa poderia deixa-la mais animada e alegre.

Afinal, hoje já não temos mais quatro crianças, cinco cachorros, três gatos e dois passarinhos. Ficaram conosco nossos dois últimos adolescentes, duas cachorras, dois gatos, os dois passarinhos e ainda mais espaço.

Começamos a procurar nas feiras de doação de animais e ontem encontrei uma que me encantou. Era preta, magra, pequena, feinha e medrosa, mas era linda e querida. Decidimos que seria ela a nossa nova criança.

Mas não fui aprovada na entrevista de adoção e não pude traze-la para casa.

Primeiro, a moça implicou com a marca de ração que ofereço às minhas cachorras. Depois, implicou com o fato de eu morar numa casa com varanda e de esta estar dentro de uma chácara. Então, implicou porque a cachorrinha era muito pequena e a casa tem muito espaço. Depois, implicou porque já temos outros bichinhos em casa. E, por último, implicou porque a família é grande e desconfiou que eu não daria o conforto e a atenção que a pequena merecia.

Nada do que eu tinha para oferecer de valor servia para ela.

Quando ela sugeriu que precisaria vir até minha casa para concordar, ou não, com meu interesse na adoção, eu finalizei a conversa com um agradecimento confuso e incomodado.

Entendi o que ela estava querendo me dizer: ela não achava que eu tinha condições de adotar um bichinho. Estava me reprovando.

Confesso que fiquei desconcertada. Ser reprovada em qualquer coisa não traz uma sensação muito boa. Ainda mais quando a não aprovação está relacionada com o que você mais valoriza na vida: família, lar, convivência, espaço, natureza, atenção e respeito ao modo de ser de cada um.

Voltei para casa de mãos vazias.

Minha pastora amarela estava me esperando no portão, com sua farta juba de leoa, conseguida a duras penas depois de termos, enfim, controlado uma doença congênita que custou caro e deu um trabalho desgastante. Agarrei aquela juba com carinho para dar-lhe um oi caloroso e ela se esparramou no chão para receber meus afagos, tão orgulhosa de seus novos pelos quanto eu.

Entrei na varanda e meus passarinhos me chamaram insistentemente para uma conversinha na gaiola, momento em que eles adoram fingir que bicam meu dedo e me imitar com voz fina falando com eles.

Enquanto isso, aos meus pés, a Pipoca não parava de pular e abanava o rabo esperando a hora de ganhar seu carinho também.

Quando cheguei na sala, meus dois gatos quase me atropelaram correndo, vindo de lá de fora para miar para mim e dizer que estavam com saudades.

Em cada um desses encontros eu me lembrei que tinha sido reprovada porque alguém achou que eu não tenho condições de cuidar de um bichinho de estimação. E em cada um desses encontros, a realidade e os bichinhos dos quais cuido me disseram que isso não é verdade.

Pensei bastante sobre esse paradoxo e a conclusão à qual cheguei é de que nunca vamos agradar a todos.

Alguém sempre vai discordar do que somos, do que valorizamos, do que oferecemos e do que fazemos.

Mas a boa notícia é que não temos que agradar a todos e o fato de alguém não nos aprovar não significa que não temos valor ou que não somos capazes.

Feedback é bom, mas tem que ser livre de preconceitos e de expectativas irreais ou ideais, e só devem ser levados em consideração quando acontecem em situações em que se tenha acesso a informações suficientes para basear uma opinião.

Num único encontro, e com o coração cheio de poréns, é muito difícil de se desenhar algo próximo do real.

Fiquei sem a cachorrinha mas, graças aos outros bichinhos que tenho em casa, recuperei o bom senso e me lembrei de que a realidade tem tantas formas quantos forem os olhos que a enxergarem.

Tina Zani

♥♥♥

Barolo

Era um Barolo, mas eu não tinha a mínima noção do que isso significava.

A única coisa que sabia é que gostava e já tinha tomado uns bons pares de taças. A fala já estava atrapalhada, a língua tinha crescido na boca e todos estavam se divertindo comigo, inclusive eu.

Era a última noite de cruzeiro, a saideira, e tudo estava tão maravilhosamente perfeito que eu nem pensei em mais nada, só queria me distrair com meus amigos, regada a um bom vinho tinto.

Fim de noite.

Senta-se uma senhora na mesa longa onde estávamos e começa a conversar. Papo vai, papo vem, descobrimos que era uma conterrânea. Mais ainda, descobrimos que ela tinha quatro filhos.

– Opa, eu também tenho quatrossss filhosssss.

Falei eu, afinal, isso é tão raro hoje em dia. E continuei:

– Quatrossss filhos? Quem tem tudo isso? Eu tenho, quatrossss filhosssss.

E mostrava quatro dedos com a mão mole de vinho Barolo bebido até o último gole.

Não sei porque, empaquei nessa frase. Fiquei repetindo sem parar até a mulher se cansar e se mandar.

– Quatrosss filhossss – mostrava quatro dedos.

– Você tem quatrosss filhossss? – mostrava quatro dedos.

– Eu também tenho quatrosss filhossss – mostrava quatro dedos.

– Quatrosss filhossss – mostrava quatro dedos.

Bom, a mulher me achou uma bêbada louca e se mandou, é claro. E deve contar essa história para seus netos até hoje.

Meus amigos a contam em todos os churrascos. Foram eles que me contaram, inclusive.

E eu, morri de ressaca no dia seguinte.

Tina Zani

♥♥♥

as palavras que habito

Na cabeça moram os sonhos já formados, os quereres com forma definida, os pensamentos coloridos e as ideias loucas e enroladas, cheias de nós e fios soltos pendurados. Também moram os cafunés.

Nos ouvidos moram a melodia, os assobios, as músicas sempre as mesmas, os sussurros e gemidos de amor, a língua intrometida, a voz doce da vida que se esparrama de mim.

Na boca não moram, escapam de vez em quando para povoar o mundo e outros corpos, sibilantes.

Nos olhos moram as cores, as flores, o céu azul ou não, a chuva, o mar, a lua e as estrelas, a noite, o infinito, o clarear e o escurecer. Nos olhos também moram o amor de namorar e o amor de deixar crescer.

Nas narinas moram as peles perfumadas de si próprias, os cabelos cacheados, os pescoços macios, e as pontinhas úmidas e geladas dos focinhos dos gatinhos.

No pescoço moram as massagens, os beijos apaixonados e atrevidos, as chupadas, os carinhos, as borboletas meninas.

Nos ombros moram um amigo, alguma timidez, o frio, as preocupações. Também moram o deixar pra lá, o tô nem aí, o tô nem ligando.

Nos braços moram os abraços que adoro dar, o lugar que adoro estar, o calor humano, o conforto, o aconchego e o mundo inteiro.

Nas mãos moram os talentos, os fazeres, os laços eternos, o entrelaçar com outras mãos, o segurar bem firme, o agarrar com toda vontade, o soltar e deixar ir, o abrir, o fechar, o deixar cair, o derrubar e empurrar. Também moram as palavras, a poesia, os bilhetinhos, os agrados, o tocar o outro e o cutucar.

No peito mora o maternar. Também moram o amor, a dor, a alegria, o leite que alimenta, o calor que acalenta, a ternura, o vem aqui, o ouve meu coração batendo e o som da minha respiração.

Nas costas moram as mãos que arrepiam e os lábios que fazem estremecer de prazer.

Na barriga mora o lugar de gerar a vida, de florescer desejos, de gestar sementes. Na barriga moram os embriões de sonhos, os pensamentos recém-nascidos, os quereres fecundados. Também moram a fome, a vontade de comer, o vazio, o cheio, o sangue vermelho e nutritivo que se perde na calcinha. Na barriga moram a vontade de fazer amor, a sensualidade, a sexualidade, o estar sozinha e o estar acompanhada.

Nas pernas moram os lugares aonde quero ir, os lugares para onde já fui, o presente, o futuro, o caminhar e tropeçar e levantar e continuar.

A vontade de ir e de voltar, de dançar, de saltitar, de correr e de ficar mora nos pés. Nos pés também moram o aprender a andar, o esticar toda e espreguiçar, o pisar, o esmagar, o sustentar. Meus primeiros passos moram nos pés e meus últimos também. E é nos pés que mora o ficar de pernas pro ar.

Tina Zani

♥♥♥