eu não sou assim

a raiva é sobre si a raiva que se projeta fora
é sobre si
a raiva que (pensa que) sente do outro é a
raiva que tem de si
mesmo
essa raiva que parece lá fora não
é raiva de ninguém
só é o reflexo que
consegue ver da raiva que
sente de si
raiva de querer – querer ser – o que
não é de
achar que ser o que não
é é mais
legal que ser o que
é de
achar que ser o que os
outros são é
mais interessante dá mais
quórum faz
mais fãs deixa
menos só
traz mais
importância
é melhor.

às vezes fica tudo muito claro

entra,
repara bem os espaços, os vãos, as janelas que são portas. a sala é escura, mas tem uma
claraboia em triângulo perto do telhado. é uma casa viva, que se expande como pulmões se
cheia de ar.
quando a casa é grande, o corpo se alarga.

há elásticos por toda parte, do solo ao teto e às paredes, nos rodapés que não existem e nas
rachaduras principalmente – são muitas, emendadas com massa corrida e tinta fresca. é a
casa. é grande e pode se expandir.

o corpo que a habita está contido em suas entranhas. como um útero prestes a parir, ele
lateja, dilata, dói, contrai
e contrai e contrai e contrai. tem algo para expelir, acomodado tão profundamente na pelve a
ponto de causar cãibras e uma vontade constante de fazer xixi. o corpo está selado. há uma
substância pegajosa que o tampona. a bolsa quer se romper, quer derramar a água quente,
deixar escorrer pelas pernas, afogar o mundo e
por isso dói.

devia afrouxar a púbis devagarinho, afastar os ísquios, flexionar os joelhos
deixar tombar as coxas para fora,
mas o devagarinho é um espaço que demanda toda atenção para se cumprir.

o corpo está deitado na cama.
escreve com o p.c. apoiado numa almofada sobre o ventre.

paro um pouco para ler as páginas do caderno e, nessa pausa, o p.c. pulsa. vejo seu
movimento, miúdo, sutil, um bombear silencioso acima e abaixo.
me espanto:
é o pulsar do ventre que move o p.c..

reverdecer

a dor acometeu a barriga. dor na barriga, bem no meio, na linha do umbigo, de atravessado, de um lado a outro, indo da direita para a esquerda e, depois, escorregada na direção do ventre. a barriga fala sozinha. conversa em voz alta numa língua estranha, não consigo entender. o direito fala, o esquerdo responde. fica assim, nessa toada o dia inteiro e nada acontece, nenhum silêncio, nenhuma conclusão. a conversa infinita e a dor atravessada. sutil e constante. desconfortável.

o corpo se deita. estica, espreguiça, descola a pele das costelas, escorrega os ossos sobre as costas, aproxima os ísquios, entorna a bacia e abre a virilha. colágeno. a ponta dos pés na parede, a ponta das mãos na janela e o esqueleto no meio, encompridando, descerra os vãos das emendas, as articulações, os poros. ouço o som dos tendões esticados como cordas de violão. eles tocam e a música sai pelos ouvidos, ecoa nos óculos de aro vermelho na frente dos olhos. a lente está suja, é difícil limpar a gordura que se acumula no vidro.

sexta-feira chorei de manhã, depois chorei à noite. a morte é um pensamento. interessante, faz a gente lembrar. traz o passado, aproxima o corpo do pó, desfoca a paisagem. o corpo responde.

não é preciso morrer para morrer.

outono

outono

— silêncio

vento frio na cara no pescoço

pés que não querem sapatos

o corpo  — não quer sair dos lençóis

 

meus olhos lacrimejantes

na roupa seca do varal

 

seco

o ar  — seca

garganta seca

seco

o sol que não (quer) esquenta(r)

 

o corpo

embriagado de ar  — tanto ar —

pra dentro, pra fora —

cresce com a lua

até ficar cheio

e derramar.

*

*

*

então eu

*

me visto de árvore.

 

Tina Zani

 

 

água. fluida, água. á-gua. cristalina, transparente, brilhante, líquida. água líquida. escorre, vaza, derrama, pinga, vai. água. á-gua. de beber, de lavar, de banhar, de mergulhar. água doce, rio. água salgada. cristais de sal. água. á-gua. líquida. fluida. molha, alaga, encharca, represa. molhada — água. á-gua. água vem, água vai. espuma, onda. mar. água de boiar. de navegar, de flutuar. água. á-gua. preenche, escapa, limpa, hidrata. água sobre as pedras, água na terra. cheiro de terra. água da chuva, da enxurrada, da cachoeira, do ribeirinho. charco. açude. água na calha, pinga no chão. pinga na sala, em cima da mesa, no quarto na cama. água penetra. enchente, vazante. água que brota das pedras, dos olhos, dos poros, da vulva. água quente. água limpa. no corpo, a água. á-gua. de nadar, de afogar, de devolver pra terra, do mar. aguavêrde, aguazúl, aguamarrôm, aguamarínha. barco onda peixe pedra. água. da torneira. na bacia, no tanque, na descarga. água na boca, no útero, gestação. água da bolsa. parto. copo de água. á-gua. do lago. alagado. poça. da fonte, do chafariz, cuspe. pra cima. a água brilha (o sol reluz). a água. pote de água. regador. lubrifica, amolece, enruga os dedos. imersão. uma gota, um gole. água.