outono

outono

— silêncio

vento frio na cara no pescoço

pés que não querem sapatos

o corpo  — não quer sair dos lençóis

 

meus olhos lacrimejantes

na roupa seca do varal

 

seco

o ar  — seca

garganta seca

seco

o sol que não (quer) esquenta(r)

 

o corpo

embriagado de ar  — tanto ar —

pra dentro, pra fora —

cresce com a lua

até ficar cheio

e derramar.

*

*

*

então eu

*

me visto de árvore.

 

Tina Zani

 

 

água. fluida, água. á-gua. cristalina, transparente, brilhante, líquida. água líquida. escorre, vaza, derrama, pinga, vai. água. á-gua. de beber, de lavar, de banhar, de mergulhar. água doce, rio. água salgada. cristais de sal. água. á-gua. líquida. fluida. molha, alaga, encharca, represa. molhada — água. á-gua. água vem, água vai. espuma, onda. mar. água de boiar. de navegar, de flutuar. água. á-gua. preenche, escapa, limpa, hidrata. água sobre as pedras, água na terra. cheiro de terra. água da chuva, da enxurrada, da cachoeira, do ribeirinho. charco. açude. água na calha, pinga no chão. pinga na sala, em cima da mesa, no quarto na cama. água penetra. enchente, vazante. água que brota das pedras, dos olhos, dos poros, da vulva. água quente. água limpa. no corpo, a água. á-gua. de nadar, de afogar, de devolver pra terra, do mar. aguavêrde, aguazúl, aguamarrôm, aguamarínha. barco onda peixe pedra. água. da torneira. na bacia, no tanque, na descarga. água na boca, no útero, gestação. água da bolsa. parto. copo de água. á-gua. do lago. alagado. poça. da fonte, do chafariz, cuspe. pra cima. a água brilha (o sol reluz). a água. pote de água. regador. lubrifica, amolece, enruga os dedos. imersão. uma gota, um gole. água.

je croyais que tes yeux étaient bleus, mais non, ils sont verts. j’ai découvert ce jour là que je t’ai vu (de perto) et tes cheveux. e aquele sorriso que você me deu, só pra mim, que sorriso foi esse? não me esqueço. às vezes ele me volta. me move. me mexe. me inspira. me excita. me poesia. ils sont verts, tes yeux. j’adore t’entendre et te voir tes yeux verts.

 

vinho

eu. só eu. eu e eu e o vinho. momento de volatilizar bordô. violeta, cor de maravilha. é hora de levantar, de levitar de saudar a vida o amor o calorzinho quente que desliza nas veias, sob a pele, por entre os pelos cabelos e capilares. esse é o momento. o instante vivo, vermelho vivo e líquido, do vinho. esse é o momento. e eu podia ter sorrido em retorno. devia ter sorrido.

Tina Zani

não tenho sono. pego caderno e caneta e espero. hoje, passei o dia em poesia e calor. concordo com a Sedevich: escritor fala de si, mesmo quando não fala.

tenho um muso. um muso fecunda a vida, fertiliza as palavras, escancara as possibilidades. fico criativa. fico grávida de ideias. fico terna, gostosa, quentinha. sobe um rio viscoso e cintilante da vulva até as narinas. me sinto delirante.

Tina Zani

no vento dessa tempestade, vejo seu rosto.

tenho dedos de papel. vermelhos e sem ponta.

quase arranco essa calcinha que me aperta a virilha.

de pé, em frente à porta, deixo o vento virar as folhas do caderno. me arrepio. o céu ficou escuro, vai chover.

pego a caneta e não sei escrever. de dentro, sinto desejos — sinto-os todos pelo papel e pelas paredes brancas. o verso que não quer sair de mim é branco também. há nuvens de chuva no céu — alguns pingos estalados aqui e ali — e o som redondo do ventilador ventando no teto. não tem ninguém. aqui não tem. ouço aves lá fora, lá longe, lá grande onde não alcanço — só os ouvidos. estou parada. meu corpo está parado. meus pés estão em silêncio, descalçados, em cima do chão. não me movo.

vento que bate na minha cara,

leva embora, leva embora.

 

vento que bate na minha cara,

assopra essa ardência, preenche esse vão, leva embora, leva embora.

 

vento que bate na minha cara pela janela do carro aberta

arrasta essa tristeza tira de mim, leva embora, leva embora.

 

vento, vento, arranca essa náusea que sufoca a minha garganta

dissolve esse nó que se fez no meu estômago

amortece essas cólicas, me adormece

leva embora, leva embora.

 

vento da estrada

na minha cara

no meu enjôo

no meu medo

no meu tremor

na minha pele

no meu útero

nos meus dedos que escrevem essas palavras.

 

vento amigo

fecha meus olhos

me deixa respirar.

 

leva embora, leva embora.

 

Tina Zani

           não quis olhar pra mim ontem
não                      não me olhou
não quis olhar pra mim                  não me olhou ontem
não quis                     não
                                                              não me olhou ontem
não quis                olhar
pra mim não quis
não                                                      não quis me ver
não quis                            não quis olhar
não quis olhar pra mim ontem      não quis me ver
                                           não quis me olhar ontem não quis
              ontem
não                    não quis        não me viu ontem
não quis olhar pra mim    ontem    não me olhou
                                                               não me olhou
não quis me ver                                  não me olhou
não quis me olhar
ontem não me viu                              não me olhou
não quis olhar pra mim ontem
não me viu
não quis me ver
não quis
não me viu
não olhou pra mim ontem.