todo dia

todo dia
arquivo pessoal

 

O despertador toca às 5h30 da manhã e você pula da cama. Faz nove dias que você decidiu que levantaria meia hora mais cedo para escrever e, para a minha – e a sua – surpresa, você vem cumprindo caprichosamente esse combinado. Nas primeiras vezes, eu tentei te convencer a ficar mais um pouco na cama, afinal estamos de férias! De férias!! E não temos que acordar tão cedo. Você até que ficou tentada a desistir, mas foi firme e conseguiu me contrariar.

Eu, ainda meio dormindo, meio acordada, tão resistente a essa decisão, me arrastei como um fantasma atrás de você.

Saímos em silêncio para não acordar o resto da casa e nem acendemos a luz da cozinha na hora de preparar o café para não incomodar o Nestor, que estava dormindo em frente à porta de vidro que separa a cozinha da área de serviço.

Enquanto o café passava, fomos até o banheiro e o gato nos seguiu, como faz todas as manhãs, pedindo comida enquanto se enrosca em nossas pernas.

Com uma caneca de café com Coffee Mate – mania sua -, sentamos para escrever. Enquanto eu não conseguia nem pensar, você já tinha aberto o caderno, pego a caneta, acertado o timer para 20 min e começava a desenhar a primeira letra. Fiquei bem quietinha e observei enquanto você se deixava inundar por ideias que iam virando texto no papel. Quando o timer soou, ficamos impressionadas. Foram duas folhas e uma página e, tirando uma ou outra edição, o texto estava bom.

Eram quase 6h. Preparamos duas xícaras de café e voltamos para o quarto para acordar o Marido. Esse é o momento que eu adoro. Até você decidir se levantar mais cedo, essa função era do Marido. Era Ele que se levantava antes das 5h e, mais tarde, voltava com café para nos acordar. Ficamos intrigadas ao perceber que ele deixou de se levantar às 5h depois que começamos a sair da cama mais cedo, mas até que tem sido legal desse jeito também.

Tomamos o café juntos e deitamos em seu peito para ronronar mais um pouco. Essa é a primeira posição: nossa cabeça no peito dele e ele nos fazendo cafuné. Na sequência, passamos para a segunda posição: viradas de lado sobre o ombro esquerdo, ele se encaixa de conchinha; com a mão esquerda segura nosso seio direito e, com a direita, a barriga. Depois, vem a terceira posição: de frente para ele, ele de frente para nós, beijinhos, bons-dias, desejos de paz e amor. A seguir, duas coisas podem acontecer: nos levantamos e é o fim da enrolação; ou, partimos para a quinta posição, que requer movimentos rigorosos dos quadris, contrações rítmicas de glúteos e abdômen e exercícios com a boca, os lábios, a língua, as mãos, os dedos. Hoje fomos só até a quarta posição, já que, embora estejamos de férias, tivemos que levar a Filha para o cursinho às 7h.

Nosso café da manhã foi diferente. Você anda bem criativa em suas vontades. Eu prefiro o de sempre, café com vitaminas e pão com Nutella, mas você quis ovos mexidos e suco de laranja e foi o que tivemos.

Apesar do verão, o dia amanheceu frio e chuvoso. Eu estava morrendo de frio e com a maior preguiça de fazer exercícios. Você, então, escolheu uma roupa quentinha e confortável e, ao invés de correr, depois de levar a Filha fomos caminhar. Eu adoro quando vamos caminhar. Temos tempo de ver a paisagem, observar os bichos da Lagoa, conversar com as árvores. Sei que você também gosta porque, depois, fica leve e sorridente e eu sinto todo o amor que você irradia. Encontramos algumas pessoas no parque. Elas sempre nos cumprimentam, e nós sorrimos de volta. Nos conhecemos de muitos anos de corrida e caminhada, apesar de não sabermos os nomes uns dos outros.

Em casa vamos para o banho. Você pensa em usar o xampu de um milhão de dólares mas eu protesto, argumentando que, se usarmos o do dia-a-dia, o de um milhão vai durar mais tempo. Falo isso porque sou muquirana e gosto de economizar as coisas boas e caras (como quando você quer usar os papeis bons de aquarela para pintar e eu fico tentando te convencer que não vale a pena, que é melhor usar o sulfite fino e baratex mesmo). Você nem liga para mim e ficamos com os cabelos mais brilhantes, mais macios e mais cheirosos que existem e eu te amo por isso.

Depois do banho é hora de cuidar do Nestor. Ele faz festa, pula, lambe, corre e canta como se não nos visse há 5 semanas. Quando, enfim, se acalma, senta na almofada da cadeira ao nosso lado, na mesa da sala, aonde vamos escrever. Admiro novamente a sua criatividade. Eu, por mim, ficava perdendo tempo fuçando site, assistindo vídeos no Youtube, pesquisando imagens e textos inspiradores. Mas você, há alguns dias, está no comando e tudo fica muito melhor quando você resolve ser você.

Escrevemos a manhã toda. Paramos apenas para preparar o almoço. Hoje temos a ajuda do Filho e você fica feliz. Você sempre fica feliz quando o Filho vem nos ajudar.

O menu de hoje é arroz integral com cenoura e ervilha, caçarola de legumes ao açafrão e alecrim e suco de limão. Desde que o Filho se tornou vegano, nossa alimentação acaba sendo mais vegana que vegetariana.

Como a máquina de lavar-louças quebrou há dias e até agora não conseguimos alguém para consertá-la, lavamos nossa louça depois de usar e lembramos o resto da casa para fazer o mesmo.

Depois do almoço, em dias normais, seria o momento de arrumarmos as coisas para ir para a Unicamp. Mas como estamos de férias, podemos escolher outras coisas para fazer, como dormir no sofá da sala, por exemplo. Eu adoraria! Você sempre foi uma preguiçosa para acordar cedo porque gosta de dormir tarde. Então, tinha certeza que, levantando às 5h30, tiraria um cochilo em algum momento durante o dia, tipo depois do almoço. Mas, inesperadamente, acordando cedo e dormindo menos horas por noite, ao invés de ficar mais cansada você ficou mais ligada e o dia rende que é uma beleza. Chegamos até a ficar entediadas com tanto tempo sobrando. Logo, minha esperança de esticar as pernas por alguns minutos foi por água abaixo quando você pegou um livro – aquele que começamos a ler no ano passado e estamos até agora tentando terminar; acho que dessa vez, vai.

No fim do dia, porque estamos de férias, você decide que vamos fazer um happy hour. Como o Marido não está de férias e justo hoje vai trabalhar até mais tarde, nosso happy vai ser em casa mesmo. Abrimos uma Sol com limão e assistimos a um capítulo de Outlander, a série que a ginecologista-homeopata recomendou e nós amamos. Sentadas no sofá com o Nestor dormindo sobre nossos pés, viajamos para a Escócia de séculos atrás, acompanhando o romance de um ruivo grande, forte e sensual com sua companheira inglesa que veio do futuro.

Mais tarde, agora junto com o Marido, tomamos uma taça de vinho tinto enquanto jantamos e conversamos sobre coisas sem importância.

Já na cama, indo dormir, percebemos que ele consertou o mau-contato da nossa luminária e ela está funcionando de novo. Nós e ele pegamos nossos livros para ler. Ele dorme e ronca na primeira linha. Você, depois da terceira página, ainda me convence a levantar mais uma vez para tomar um copo de água da talha de barro – que você diz que é a mais saborosa e refrescante das águas – naquele copo aonde você grudou com Durex um pedacinho de papel com um lembrete que diz ‘quando eu estou em paz, o mundo todo e todo mundo ficam em paz’.

Ficamos em paz. O mundo fica em paz. Dormimos. De viés na cama, com o ventilador ligado, o travesseiro na cabeceira, o xale vermelho da vó Isabel enrolado no pescoço, o bicho de pelúcia no braço direito, a almofada grande do lado esquerdo, a almofadinha feita pela Filha quando era pequena em cima da barriga e as pernas em cima do Marido.

Tina Zani

♥♥♥

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sal grosso

al grosso
arquivo pessoal

 

Mar, misterioso mar, que reflete a lua em noite de estrelas,

leva meus medos na puxada da água. Limpa meu corpo e lava meus pensamentos com sal.

Mar, imenso mar,

me ensina o infinito, me ensina a respeitar. Me mostra as profundezas de ti pra que eu me lembre que a vida não é só o que há na superfície. Tem muito mais por baixo.

Ah, mar, que refresca e embala,

me traz calma, me ensina o ritmo pra eu poder respirar. Me diz que a tormenta é passageira e que eu posso confiar. Me lembra que a vida é ciclo, que o tempo não segue em linha reta e que, sobre isso, não adianta teimar.

Mar, mar, mar,

me deixa perder meus olhos só pra te olhar. Que tua vida e a minha se encontrem numa coisa só, um abraço líquido e terno, que purifica e protege. Que me sentindo acolhida em tuas águas, eu saiba que está tudo bem e que há no mundo um lugar para mim do jeito que sou de verdade.

Mar de azul,

que em todas as manhãs, ao acordar, mesmo longe de ti, que eu me lembre que você existe e está aí para mim. Que, assim, eu não me sinta desamparada ou só e que na certeza da tua existência fluida e contínua, eu também continue fluindo, porque tudo está no Plano.

Mar, meu mar, que banha a areia da praia dia e noite, noite e dia sem cansar, que vai, depois volta, que enche e esvazia, que sobe e que desce, que se crispa e que é calmaria, que eu entenda que a vida é sempre movimento. Que o que é bom vem, mas também vai e que o mesmo acontece com o que não é bom. Que, acima de tudo, eu entenda ao te contemplar, que o bom e o ruim pertencem à mesma onda e que a água salgada que molha meus pés vem do mesmo oceano que molha os pés de meu irmão.

Mar, grande mar,

me lembra que todos somos feitos da mesma substância.

Que somos todos um.

Tina Zani

♥♥♥

aquela que mora ao lado

aquela que mora ao lado
arquivo pessoal

 

É que de repente tudo parece que sumiu, aquilo tudo que estava me apertando o peito e me brotando uma raiva profunda, um ódio quase palpável, um amargor na língua e nos olhos que não me deixou ver as árvores nem as pedras nem as aves do caminho. É que bem agora, nesse momento que resolvi falar, a garganta que estava seca e arranhada de arame parece que tem chocolate escorrendo fondue de morango e aquelas coisas horrorosas que eu queria dizer submergiram num caldo doce e pastoso derramado por cima delas. Ah, bem agora, que eu podia falar tudo, que eu podia despejar todo aquele abacaxi amassado com gotas de limão, as coisas ficaram macias e suaves, tão suaves que nem as consigo sentir mais. Bem agora que eu tenho você aqui para me ouvir, assim, tão parada na minha frente, me olhando, me esperando, palavra nenhuma me ocorre para descrever o que eu tinha pra contar e no lugar de palavras na cabeça só tem algodão branco de nuvem, pra eu agora deitar e descansar daquela tensão, daquela obsessão, de toda ansiedade que me deu náusea e vontade de vomitar, que me tirou a fome, me deu sono sem conseguir dormir. Bem agora eu não sei aonde tudo foi parar, em que canto escuro do meu corpo tudo foi se esconder, dentro de qual porta, atrás de qual armário, para sair de repente, quando eu não quiser, e me assustar de novo, me pegar desprevenida, apertar meus pulmões e obstruir minhas veias, meus vasinhos mais minúsculos. Bem agora virou tudo fantasma voando transparente, deixando ver outras coisas por trás de véus iludidos, parecendo tudo tão bonito e tranquilo, cortina de renda balançando na brisa. Ah, como eu queria te contar, te falar o que passei à flor da pele, o que senti no parado do tempo que não andava, empacado, atolado na lama dos meus sentimentos mais pegajosos, colados aos meus pensamentos com Super Bonder para não despregar nunca mais, até chacoalhando a cabeça, até apertando os olhos, até correndo o mais rápido que conseguisse, até ficando bem quietinha para não ouvir o que eles estavam gritando com chicote de couro afiado nas mãos venenosas. Veneno. Um veneno que impregnou a vida e pintou tudo de um preto só, sem deixar ar para respingar. E minha mão apertando a outra, os dentes de cima mordendo os de baixo. Queria derreter e virar poça de água no chão dentro da Terra. Queria um guindaste do céu com uma pinça na ponta que me retirasse da paisagem. Queria uma chuva que me lavasse e me dissolvesse e eu pudesse evaporar e então tudo fosse silêncio e vazio infinitos. Ah, se você pudesse ver as larvas que comiam a minha carne viva debaixo do esterno. Sim, havia larvas me comendo o peito sangrando mas ele ainda pulsava. Era isso que me dava náuseas, era esse nojo das larvas esburacando a carne, entrando e saindo, caindo pelos ocos cavernosos que abriam, fétidos, pútridos, úmidos, brilhosos. Era isso que me dava raiva, essa carne contaminada, a minha carne – tão querida, tão amada -, dilacerada, moída, picada e eu com ela, e ela em mim e eu queria jogar fora, queria arrancar à força, com as unhas, com as lágrimas, com a culpa. Queria não deixar as larvas aparecerem das profundezas, queria não ver, não ouvir, não saber, desexistir. Ah, como eu queria desexistir. Tão envergonhada. Eu queria me esconder bem encolhidinha atrás da poltrona da sala, onde se esconde o Nestor com medo de trovão. A cabeça entre os ombros, os joelhos no coração, eu ficaria ali, não precisava mais sair. Quem sabe eu virava um vaso de alho-poró.

Tina Zani

♥♥♥