o único lugar que te conheço

chego em casa

e você com a mesma cara (de bosta).

pergunto como foi seu dia

e você com a mesma resposta (de merda).

nada nunca está bom

ninguém nunca (te) satisfaz

a vida é um peso nas (suas) costas

você empurra (a gente) (pra longe) com a barriga

como fardos que tem que arrastar.

seu olhar está opaco

perdeu o brilho que iluminava a rua.

em torno dos olhos, dois círculos escuros

profundos.

seu sorriso

antes fácil e sincero

agora é raro e irônico

sarcástico (sempre nervoso).

quando você fala

o gosto é azedo

mal consigo olhar para você.

tenho raiva

me afasto

tenho pena.

 

de manhã

de manhãzinha

é o único lugar que te (re)conheço.

 

Tina Zani

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ar seco narinas secas garganta seca seca a roupa no varal seco o sol que não esquenta pele fria pé descalço tosse espirro outono silêncio

folhas secas céu azul claridade
meus olhos lacrimejantes e eu
fim de março

me visto de árvore.

Tina Zani

invasão

sigo pensando sem querer sigo.

assuntos ocupam abrem portas delicadamente fechadas

invadem mansos preenchem espaços de paz agitam as ondas lisas do mar.

seguem penetrando

pelas frestas dos olhos

para dentro pelos poros para dentro pela língua para dentro pela narina

inundam alagam

cobrem tudo com cera

parafina.

sufocam paralisam enclausuram.

 

quero fogo para derreter.

 

Tina Zani

turbilhão

tremo. o corpo inteiro, minhas mãos, tremo. coração pele olho. as lágrimas sob a pálpebra, tremo. chove sem fim um dia molhado meu sangue quente correndo aos pulos escorrendo pela calha a água vermelha que não sai dos meus olhos. de repente a vida se encolheu. algo se recolheu. o peito lateja e no ouvido ecoam as palavras sinceras duras que não ouvi.

Tina Zani