je croyais que tes yeux étaient bleus, mais non, ils sont verts. j’ai découvert ce jour là que je t’ai vu (de perto) et tes cheveux. e aquele sorriso que você me deu, só pra mim, que sorriso foi esse? não me esqueço. às vezes ele me volta. me move. me mexe. me inspira. me excita. me poesia. ils sont verts, tes yeux. j’adore t’entendre et te voir tes yeux verts.

 

vinho

eu. só eu. eu e eu e o vinho. momento de volatilizar bordô. violeta, cor de maravilha. é hora de levantar, de levitar de saudar a vida o amor o calorzinho quente que desliza nas veias, sob a pele, por entre os pelos cabelos e capilares. esse é o momento. o instante vivo, vermelho vivo e líquido, do vinho. esse é o momento. e eu podia ter sorrido em retorno. devia ter sorrido.

Tina Zani

não tenho sono. pego caderno e caneta e espero. hoje, passei o dia em poesia e calor. concordo com a Sedevich: escritor fala de si, mesmo quando não fala.

tenho um muso. um muso fecunda a vida, fertiliza as palavras, escancara as possibilidades. fico criativa. fico grávida de ideias. fico terna, gostosa, quentinha. sobe um rio viscoso e cintilante da vulva até as narinas. me sinto delirante.

Tina Zani

no vento dessa tempestade, vejo seu rosto.

tenho dedos de papel. vermelhos e sem ponta.

quase arranco essa calcinha que me aperta a virilha.

de pé, em frente à porta, deixo o vento virar as folhas do caderno. me arrepio. o céu ficou escuro, vai chover.

pego a caneta e não sei escrever. de dentro, sinto desejos — sinto-os todos pelo papel e pelas paredes brancas. o verso que não quer sair de mim é branco também. há nuvens de chuva no céu — alguns pingos estalados aqui e ali — e o som redondo do ventilador ventando no teto. não tem ninguém. aqui não tem. ouço aves lá fora, lá longe, lá grande onde não alcanço — só os ouvidos. estou parada. meu corpo está parado. meus pés estão em silêncio, descalçados, em cima do chão. não me movo.

vento que bate na minha cara,

leva embora, leva embora.

 

vento que bate na minha cara,

assopra essa ardência, preenche esse vão, leva embora, leva embora.

 

vento que bate na minha cara pela janela do carro aberta

arrasta essa tristeza tira de mim, leva embora, leva embora.

 

vento, vento, arranca essa náusea que sufoca a minha garganta

dissolve esse nó que se fez no meu estômago

amortece essas cólicas, me adormece

leva embora, leva embora.

 

vento da estrada

na minha cara

no meu enjôo

no meu medo

no meu tremor

na minha pele

no meu útero

nos meus dedos que escrevem essas palavras.

 

vento amigo

fecha meus olhos

me deixa respirar.

 

leva embora, leva embora.

 

Tina Zani

           não quis olhar pra mim ontem
não                      não me olhou
não quis olhar pra mim                  não me olhou ontem
não quis                     não
                                                              não me olhou ontem
não quis                olhar
pra mim não quis
não                                                      não quis me ver
não quis                            não quis olhar
não quis olhar pra mim ontem      não quis me ver
                                           não quis me olhar ontem não quis
              ontem
não                    não quis        não me viu ontem
não quis olhar pra mim    ontem    não me olhou
                                                               não me olhou
não quis me ver                                  não me olhou
não quis me olhar
ontem não me viu                              não me olhou
não quis olhar pra mim ontem
não me viu
não quis me ver
não quis
não me viu
não olhou pra mim ontem.

me vou ao mar. olhar o mar na beira-mar, da areia da beira do mar, nas conchas coloridas quebradas vazias que vêm do mar.

me vou ao mar. molhar meu corpo no mar, molhar meus pelos no mar, molhar minha alma no mar, molhar as lágrimas no mar.

me vou ao mar. deixar meu corpo no mar, deixar o mar me levar deixar o mar me levar deixar o mar me lavar.
infinito mar.

 

cansei de remar

estou cansada. estou muito, muito cansada confusa com raiva e triste. profundamente sentida e cansada. profundamente cansada. muito cansada. totalmente, extremamente, infelizmente cansada. cansada mesmo. cansada ao extremo. cansada. cansada cansada. estou cansada. muito cansada. muito muito cansada. imensamente, dolorosamente cansada demais. ah como estou cansada. estou mole e sem forças. estou tão cansada. tenho ânsia de cansaço. meu estômago está enjoado, minhas mãos tremem, meus olhos não vêem. eu estou cansada. muito muito muito cansada. cansada do fundo do coração. cansada de corpo inteiro. meus ombros, meu pescoço, doem de tanto cansaço. respiro fundo de cansaço. suspiro de cansaço. perdi o sono de tanto cansaço. cansei. estou muito cansada. não consigo enxergar direito de tanto cansaço. minha mão direita quase não segura a caneta de cansaço. cansada. estou mesmo muito muito muito muitíssimo cansada. quando suspiro sai junto um soluço de cansaço. que cansaço. que cansada. que canseira. estou, meu deus, estou mesmo, minha deusa, estou inteira, de corpo e alma, muito cansada. sozinha e cansada. completamente cansada. preciso descansar, estou muito cansada. algo tem que mudar. não adianta descansar pra depois continuar. estou cansada de viver cansada. estou cansada de descansar pra continuar a cansar. quero me libertar do que me cansa. preciso me libertar. estou em pânico, estou exausta. vou deixar a água correr. cansei de remar. quero parar. vou deixar o rio me levar. não quero mais continuar. preciso muito descansar. estou cansada. preciso muito descansar.

 

Tina Zani