turbilhão

tremo. o corpo inteiro, minhas mãos, tremo. coração pele olho. as lágrimas sob a pálpebra, tremo. chove sem fim um dia molhado meu sangue quente correndo aos pulos escorrendo pela calha a água vermelha que não sai dos meus olhos. de repente a vida se encolheu. algo se recolheu. o peito lateja e no ouvido ecoam as palavras sinceras duras que não ouvi.

Tina Zani

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asas

I

procuro razões para estar junto.

é tempo de florescer – misturo as cores da anilina no papel.

sob a pele

no âmago do esqueleto

o conteúdo que perdi. deixei cair nas voltas do caminho

nas vezes que curvei a alma e abotoei o amor no meio do peito

dentro da camiseta.

não percebi.

 

II

voei igual inseto em torno da luz – se perder minhas asas, arrasto a vida que nem larva pra dentro da madeira.

cantei feito cigarra vibrei na terra. 

no calor morno dos fins de tarde brotou uma pergunta entre meus pés

eu

deitada num chão de pedras

falei com as estrelas.

 

Tina Zani

caos

buraco. sou um buraco grande e escuro, muito escuro, profundo. sou um buraco cheio de noite. cheio de nada. um buraco que dá medo, buraco negro, que engole tudo, desaparece com tudo. sem fundo, com paredes de pedra farinhenta, que vão se desmanchando, pingando pó. sou um buraco, um oco redondo, um precipício doloroso. perigoso. cruel. não vejo nada lá dentro. não consigo ver lá dentro não enxergo não enxergo não enxergo. sopro ar desse buraco. o ar sai com força pela boca. eu sinto. dói. o buraco dói. ele arde. ele comprime. é um buraco negro. não sei como surgiu. não sei o que tem dentro dele. não sei porque surgiu. um buraco negro, em expansão, suas beiradas vão se desfazendo e ele se amplia. vai tomando conta de mim. vai me engolindo, me esmagando, me mastigando. tem um caos que o acompanha, uma energia densa, fumaça. um buraco. esse buraco. me dá sono. silêncio. o meu buraco. é só meu. um buraco grande, largo, longo, escuro. um breu, uma queda livre na noite no nada no vazio rugoso. escuro-cego terrível. terroso. buraco fundo. tem cheiro de medo. cheiro de não. é um papel todo rabiscado. cabelo cheio de nó. tapete cheio de ácaro. ar poluído. água parada. chuva de granizo. raio. trovão. alagamento.

Tina Zani

todo dia

todo dia
arquivo pessoal

 

O despertador toca às 5h30 da manhã e você pula da cama. Faz nove dias que você decidiu que levantaria meia hora mais cedo para escrever e, para a minha – e a sua – surpresa, você vem cumprindo caprichosamente esse combinado. Nas primeiras vezes, eu tentei te convencer a ficar mais um pouco na cama, afinal estamos de férias! De férias!! E não temos que acordar tão cedo. Você até que ficou tentada a desistir, mas foi firme e conseguiu me contrariar.

Eu, ainda meio dormindo, meio acordada, tão resistente a essa decisão, me arrastei como um fantasma atrás de você.

Saímos em silêncio para não acordar o resto da casa e nem acendemos a luz da cozinha na hora de preparar o café para não incomodar o Nestor, que estava dormindo em frente à porta de vidro que separa a cozinha da área de serviço.

Enquanto o café passava, fomos até o banheiro e o gato nos seguiu, como faz todas as manhãs, pedindo comida enquanto se enrosca em nossas pernas.

Com uma caneca de café com Coffee Mate – mania sua -, sentamos para escrever. Enquanto eu não conseguia nem pensar, você já tinha aberto o caderno, pego a caneta, acertado o timer para 20 min e começava a desenhar a primeira letra. Fiquei bem quietinha e observei enquanto você se deixava inundar por ideias que iam virando texto no papel. Quando o timer soou, ficamos impressionadas. Foram duas folhas e uma página e, tirando uma ou outra edição, o texto estava bom.

Eram quase 6h. Preparamos duas xícaras de café e voltamos para o quarto para acordar o Marido. Esse é o momento que eu adoro. Até você decidir se levantar mais cedo, essa função era do Marido. Era Ele que se levantava antes das 5h e, mais tarde, voltava com café para nos acordar. Ficamos intrigadas ao perceber que ele deixou de se levantar às 5h depois que começamos a sair da cama mais cedo, mas até que tem sido legal desse jeito também.

Tomamos o café juntos e deitamos em seu peito para ronronar mais um pouco. Essa é a primeira posição: nossa cabeça no peito dele e ele nos fazendo cafuné. Na sequência, passamos para a segunda posição: viradas de lado sobre o ombro esquerdo, ele se encaixa de conchinha; com a mão esquerda segura nosso seio direito e, com a direita, a barriga. Depois, vem a terceira posição: de frente para ele, ele de frente para nós, beijinhos, bons-dias, desejos de paz e amor. A seguir, duas coisas podem acontecer: nos levantamos e é o fim da enrolação; ou, partimos para a quinta posição, que requer movimentos rigorosos dos quadris, contrações rítmicas de glúteos e abdômen e exercícios com a boca, os lábios, a língua, as mãos, os dedos. Hoje fomos só até a quarta posição, já que, embora estejamos de férias, tivemos que levar a Filha para o cursinho às 7h.

Nosso café da manhã foi diferente. Você anda bem criativa em suas vontades. Eu prefiro o de sempre, café com vitaminas e pão com Nutella, mas você quis ovos mexidos e suco de laranja e foi o que tivemos.

Apesar do verão, o dia amanheceu frio e chuvoso. Eu estava morrendo de frio e com a maior preguiça de fazer exercícios. Você, então, escolheu uma roupa quentinha e confortável e, ao invés de correr, depois de levar a Filha fomos caminhar. Eu adoro quando vamos caminhar. Temos tempo de ver a paisagem, observar os bichos da Lagoa, conversar com as árvores. Sei que você também gosta porque, depois, fica leve e sorridente e eu sinto todo o amor que você irradia. Encontramos algumas pessoas no parque. Elas sempre nos cumprimentam, e nós sorrimos de volta. Nos conhecemos de muitos anos de corrida e caminhada, apesar de não sabermos os nomes uns dos outros.

Em casa vamos para o banho. Você pensa em usar o xampu de um milhão de dólares mas eu protesto, argumentando que, se usarmos o do dia-a-dia, o de um milhão vai durar mais tempo. Falo isso porque sou muquirana e gosto de economizar as coisas boas e caras (como quando você quer usar os papeis bons de aquarela para pintar e eu fico tentando te convencer que não vale a pena, que é melhor usar o sulfite fino e baratex mesmo). Você nem liga para mim e ficamos com os cabelos mais brilhantes, mais macios e mais cheirosos que existem e eu te amo por isso.

Depois do banho é hora de cuidar do Nestor. Ele faz festa, pula, lambe, corre e canta como se não nos visse há 5 semanas. Quando, enfim, se acalma, senta na almofada da cadeira ao nosso lado, na mesa da sala, aonde vamos escrever. Admiro novamente a sua criatividade. Eu, por mim, ficava perdendo tempo fuçando site, assistindo vídeos no Youtube, pesquisando imagens e textos inspiradores. Mas você, há alguns dias, está no comando e tudo fica muito melhor quando você resolve ser você.

Escrevemos a manhã toda. Paramos apenas para preparar o almoço. Hoje temos a ajuda do Filho e você fica feliz. Você sempre fica feliz quando o Filho vem nos ajudar.

O menu de hoje é arroz integral com cenoura e ervilha, caçarola de legumes ao açafrão e alecrim e suco de limão. Desde que o Filho se tornou vegano, nossa alimentação acaba sendo mais vegana que vegetariana.

Como a máquina de lavar-louças quebrou há dias e até agora não conseguimos alguém para consertá-la, lavamos nossa louça depois de usar e lembramos o resto da casa para fazer o mesmo.

Depois do almoço, em dias normais, seria o momento de arrumarmos as coisas para ir para a Unicamp. Mas como estamos de férias, podemos escolher outras coisas para fazer, como dormir no sofá da sala, por exemplo. Eu adoraria! Você sempre foi uma preguiçosa para acordar cedo porque gosta de dormir tarde. Então, tinha certeza que, levantando às 5h30, tiraria um cochilo em algum momento durante o dia, tipo depois do almoço. Mas, inesperadamente, acordando cedo e dormindo menos horas por noite, ao invés de ficar mais cansada você ficou mais ligada e o dia rende que é uma beleza. Chegamos até a ficar entediadas com tanto tempo sobrando. Logo, minha esperança de esticar as pernas por alguns minutos foi por água abaixo quando você pegou um livro – aquele que começamos a ler no ano passado e estamos até agora tentando terminar; acho que dessa vez, vai.

No fim do dia, porque estamos de férias, você decide que vamos fazer um happy hour. Como o Marido não está de férias e justo hoje vai trabalhar até mais tarde, nosso happy vai ser em casa mesmo. Abrimos uma Sol com limão e assistimos a um capítulo de Outlander, a série que a ginecologista-homeopata recomendou e nós amamos. Sentadas no sofá com o Nestor dormindo sobre nossos pés, viajamos para a Escócia de séculos atrás, acompanhando o romance de um ruivo grande, forte e sensual com sua companheira inglesa que veio do futuro.

Mais tarde, agora junto com o Marido, tomamos uma taça de vinho tinto enquanto jantamos e conversamos sobre coisas sem importância.

Já na cama, indo dormir, percebemos que ele consertou o mau-contato da nossa luminária e ela está funcionando de novo. Nós e ele pegamos nossos livros para ler. Ele dorme e ronca na primeira linha. Você, depois da terceira página, ainda me convence a levantar mais uma vez para tomar um copo de água da talha de barro – que você diz que é a mais saborosa e refrescante das águas – naquele copo aonde você grudou com Durex um pedacinho de papel com um lembrete que diz ‘quando eu estou em paz, o mundo todo e todo mundo ficam em paz’.

Ficamos em paz. O mundo fica em paz. Dormimos. De viés na cama, com o ventilador ligado, o travesseiro na cabeceira, o xale vermelho da vó Isabel enrolado no pescoço, o bicho de pelúcia no braço direito, a almofada grande do lado esquerdo, a almofadinha feita pela Filha quando era pequena em cima da barriga e as pernas em cima do Marido.

Tina Zani

♥♥♥

sal grosso

al grosso
arquivo pessoal

 

Mar, misterioso mar, que reflete a lua em noite de estrelas,

leva meus medos na puxada da água. Limpa meu corpo e lava meus pensamentos com sal.

Mar, imenso mar,

me ensina o infinito, me ensina a respeitar. Me mostra as profundezas de ti pra que eu me lembre que a vida não é só o que há na superfície. Tem muito mais por baixo.

Ah, mar, que refresca e embala,

me traz calma, me ensina o ritmo pra eu poder respirar. Me diz que a tormenta é passageira e que eu posso confiar. Me lembra que a vida é ciclo, que o tempo não segue em linha reta e que, sobre isso, não adianta teimar.

Mar, mar, mar,

me deixa perder meus olhos só pra te olhar. Que tua vida e a minha se encontrem numa coisa só, um abraço líquido e terno, que purifica e protege. Que me sentindo acolhida em tuas águas, eu saiba que está tudo bem e que há no mundo um lugar para mim do jeito que sou de verdade.

Mar de azul,

que em todas as manhãs, ao acordar, mesmo longe de ti, que eu me lembre que você existe e está aí para mim. Que, assim, eu não me sinta desamparada ou só e que na certeza da tua existência fluida e contínua, eu também continue fluindo, porque tudo está no Plano.

Mar, meu mar, que banha a areia da praia dia e noite, noite e dia sem cansar, que vai, depois volta, que enche e esvazia, que sobe e que desce, que se crispa e que é calmaria, que eu entenda que a vida é sempre movimento. Que o que é bom vem, mas também vai e que o mesmo acontece com o que não é bom. Que, acima de tudo, eu entenda ao te contemplar, que o bom e o ruim pertencem à mesma onda e que a água salgada que molha meus pés vem do mesmo oceano que molha os pés de meu irmão.

Mar, grande mar,

me lembra que todos somos feitos da mesma substância.

Que somos todos um.

Tina Zani

♥♥♥