A Caixinha de Surpresas

Foto de Tina Zani
Foto de Tina Zani

 

Tem que olhar bem devagar. Cada pedacinho, todos os detalhes, para perceber que é uma caixinha diferente.

Pode ser que não sejamos capazes de ver a diferença olhando por fora. É uma caixinha quase comum.

 
Tamanho médio.
Textura suave.
Cantos arredondados.
Desenho sinuoso.
Cor clara.

 
Se estiver entre outras caixas maiores e mais espalhafatosas, talvez nem a vejamos.

 
Silenciosa.
Discreta.

 
É preciso olhar por dentro para descobrir os tesouros que ela guarda.
Em cada cantinho.
A cada centímetro.
Em todos os pedacinhos.

Tesouros de encantar a gente. De abraçar corações.

Tesouros de embrulhar a voz, enevoar a vista, acarinhar a pele, adoçar os ouvidos.
É lá dentro que estão as mais delicadas surpresas.
Uma plantinha brotando feliz em um vaso de sol. Um caracol passeando e cantando pelo jardim. Uma pombinha chocando, alegre, dois ovinhos no ninho, bem na ponta do galho da árvore. Três abelhas conversando na pétala da flor. Um caco de espelho refletindo o céu. O grilo e a grila namorando a criquilar. O vento balançando, bem mansinho, pequenos sinos de cristal. Uma gatinha branca se espreguiçando no degrau.

Faíscas de amor boiando no ar.

 

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A Vida Pede Passagem

Foto de Tina Zani
Foto de Tina Zani

 

Às vezes penso que ainda vou ser mãezinha de criança pequena para sempre.

Deixar crescer. Deixar independer. Deixar ser. Deixar ter espaço. Deixar largar de mim. Deixar não me querer por perto. Deixar não me contar. Deixar não aparecer na foto. Deixar soltar a mão. Deixar não precisar dos meus beijos. Deixar não querer meus abraços quentes. Deixar não conversar comigo. Deixar não gostar da música que ouço. Deixar ficar. Deixar não me acompanhar. Deixar rejeitar meus conselhos. Deixar não ser igual a mim. Deixar fugir do meu consolo. Deixar não querer meu colo. Deixar escapar dos meus olhos. Deixar não precisar dos meus cuidados. Deixar se desfazer do meu já obsoleto e demodê amor de mãe de criancinha pequena ainda.

Ah…

É a vida me empurrando para o lado e rasgando espaço para poder passar.

Saber esperar.