Eu Prefiro Ser. A Dor e A Delícia de Ser o Que Sou.

Foto de Sabrina Zani
Foto de Sabrina Zani

 

A Arte e a Engenharia sentaram para conversar.

A Engenharia contou coisas maravilhosas que realizou desde o dia em que nasceu.

Falou sobre os belos prédios que construiu, fortes, retos, maciços e seguros. Enumerou todas as casas, de todos os modelos, formas e tamanhos, que abrigaram tantas famílias. Contou sobre as instalações elétricas, sobre a telefonia que desenvolveu, sobre as estradas que abriu, as pontes que edificou. Falou sobre as máquinas maravilhosas que criou, os computadores e outros devices, a televisão, as próteses, o celular, os carros e toda a tecnologia inovadora que inventou. Contou sobre os navios e aviões, os submarinos e trens, as máquinas fotográficas e filmadoras, os remédios, a comida enlatada e industrializada e tantas outras coisas que facilitaram a vida e trouxeram conforto. Tudo obra da Engenharia.

A Arte ouviu muito atenta e orgulhosa da Engenharia. Estava maravilhada com toda aquela lista infinita de grandes feitos que mudaram para sempre a vida no mundo. Lembrou-se do dia em que acabou a energia e logo percebeu o quanto a eletricidade é importante; lembrou-se também quando construiu sua casa e precisou de um engenheiro e do quanto é cômodo poder utilizar os meios de locomoção.

E, então, foi se lembrando de muitas coisas. Lembrou-se, por exemplo, de quando a Engenharia era pequena e sua mãe lhe embalava no colo entoando cantigas de ninar; ou quando, já maiorzinha, a Engenharia se enamorou e quis aprender a arte de amar. Escreveu cartas de amor, compôs poesias, fez letras de música e até arriscou algumas notas no violão para manifestar todo o seu doce sentimento. Lembrou-se também das noites depois do trabalho, quando a Engenharia, cansada, adorava ir ao cinema, e como voltava satisfeita e feliz. E dos finais de semana quando preferia ficar em casa ouvindo uma boa música e se dedicando à arte da culinária com os amigos. Teve o dia em que quis aprender a arte de se comunicar e, depois, a arte do sexo. Lembrou-se daquele sorriso delicioso que escapou enquanto se divertia com os palhaços no circo, com o mágico e o malabarista e até mesmo daquela época em que a Engenharia se dedicou a uma arte marcial que lhe fez sentir-se tão bem. Ah, claro, também lembrou-se daquele momento tão romântico em que dançou com a namorada sob o luar, o coração batendo forte quase pulou pela boca… E a bela arquitetura de suas construções? De encher os olhos! E, também, todas aquelas lindas fotos, carregadas de boas memórias. E as cores, quadros e esculturas que deixaram seu lar mais aconchegante e alegre, e todos os livros nos quais viajou para fora do mundo…

Um dia, já bem velhinhas, em um futuro longínquo, a Arte e a Engenharia  vão passar dessa para melhor. E o que vão levar aqui da Terra? Lembranças… Do amor que deram e que receberam, dos bons momentos que passaram com amigos, das emoções compartilhadas, dos prazeres que proporcionaram e que tiveram, das coisas belas que viram, dos sorrisos que deram, das alegrias que viveram.

Mas essa é só uma estória contada pelos olhos da Arte. Quem vai ligar para ela? Afinal, a Arte não serve para nada mesmo…

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