De Chocolate, Por Favor.

Foto de Tina Zani
Foto de Tina Zani

 

Meu sorvete favorito é o de chocolate – especialmente o de chocolate com pedaços da Sergel, que é bom, farto e barato e, para ocasiões especiais, os da Häagen-Dazs.

Eu não gosto de sorvete de creme.

Mas tenho que admitir que sou uma das únicas pessoas que conheço que não gosta desse sabor. O consenso, a maioria, é pelo creme.

Sobremesa para um jantarzinho com amigos em casa? Sorvete de creme. Petit gateau? Sorvete de creme. Bolo com sorvete? É de creme. Para a criançada no churrasco? Sorvete de creme.

Para mim o sorvete de creme é sem graça. É apenas creme. Sem emoções, seguro, conhecido, confortável.

E é por esses mesmos motivos que ele agrada a maioria. É suave. É conhecido. É confortável. Não demanda grandes emoções. É seguro. Não há risco.

Embora defenda com unhas, dentes e colher na mão o meu legítimo direito de preferir sorvete de chocolate, às vezes não tenho a mesma bravura e ousadia quando se trata de me apropriar dos meus sonhos, minhas opiniões sobre um assunto, meus pensamentos compartilhados com a vida afora.

Tenho a péssima tendência de querer agradar a todos e, aos poucos, ao longo do tempo, sem perceber, acabo tornando minha vida um sorvete de creme. Sem graça. Conhecida. Confortável. Segura. Sem grandes emoções.

Vou adaptando os sonhos, reescrevendo os planos, aparando as arestas e procurando me encaixar.

Por isso, outro dia compartilhei aqui meu profundo desejo de assumir minhas desigualdades. Minha ‘uniquez’ – ou diferencial, se você é da turma da baunilha.

É muito fácil ser apanhada na armadilha do sorvete de creme.

Ela aparece quando compartilho com alguém um pensamento não unânime, um sonho descabelado ou um objetivo que arranha tudo o que é seguro e confortável na cabeça e no coração do outro.

E quanto mais desligada das minhas imperfeições e das coisas que me fazem única nesse mundo, mais eu tento agradar… a todos. E a armadilha do sorvete de creme me lambuza dos pés a cabeça.

Não. Não quero sorvete de creme para mim, nem para servir aos outros.

É impossível agradar a todos.

Quero sorvete de chocolate. Com pedaços. Com macadâmia. Com cookie. Com menta…

Para não errar ou para agradar, vá de creme.

Mas para ser feliz, tem que mergulhar no sabor predileto, apropriar-se dele e oferecê-lo à vida, de cabeça erguida. Com bravura. Com certeza.

Não queremos pessoas iguais. Queremos a gente, como a gente é. Única e desigual.

Nem todo mundo vai concordar com nossos pensamentos ou acreditar em nossos sonhos. Tudo bem. Isso não faz deles melhores ou piores, apenas diferentes.

 

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