Em Busca da Imperfeição

Foto de Tina Zani
Foto de Tina Zani

 

Procuro uma escola que me ensine a ser imperfeita.

Ou melhor, uma escola que me ensine a não ser perfeita. Alguém conhece?

Também pode ser um curso, uma imersão  ou, melhor ainda, um pequeno grupo de pessoas queridas que se encontram todas as semanas para conversar, compartilhar e praticar a imperfeição. Tô falando sério, estou mesmo interessada.

Não falo de imperfeição no sentido de defeito, de falha ou de erro. Imperfeição, nesse caso, se relaciona com a qualidade humana que nos acompanha desde o nascimento. Somos perfeitos em nossa imperfeição. E tentamos desesperadamente reformá-la.

Queremos ser perfeitos em tudo e sofremos quando não conseguimos. E não conseguimos. Então sofremos. Queremos ter o comportamento perfeito, ser o cônjuge perfeito, ter amizades perfeitas. Queremos criar nossos filhos de forma perfeita e queremos que eles sejam perfeitos em seus comportamentos e escolhas. Queremos ter um visual maravilhoso, a roupa perfeita, o cabelo certo, a pele de bebê, o corpo de modelo, a vida perfeita. Também queremos que a casa esteja sempre em ordem, a cozinha sempre organizada, os cachorros muito bem comportados e que os gatos não soltem pelos por aí. Queremos que o nosso carro esteja sempre lavado por fora e limpo por dentro e que seja novo. Queremos muitas outras coisas perfeitas, mas o pior de tudo é que queremos não ter imperfeições.

Não gostamos de admitir que costumamos esquecer os nomes das pessoas (que deselegante!) e, às vezes, esquecemos até as pessoas; que não somos bons em fazer contas de cabeça; que não sabemos as funções de todos os botões da televisão que está ligada na Net e acoplada ao Play Station e linkada ao Pop Corn Hour (que absurdo!). É difícil de assumir quando fazemos uma bobagem, falamos uma besteira descabida, não sabemos como se escreve uma palavra, não entendemos uma piada, levamos susto toda vez que alguém entra em silêncio na sala ou temos um dia de mau humor.

Quero treinar minha imperfeição. Aquela imperfeição que tem um certo toque de ingenuidade, uma pitada de maluquice, com cheiro de entrega, gosto de aceitação, cor de oceano. Que transgride convenções, frustra expectativas alheias, surpreende a família, mas é inofensiva e não agride o outro e nem a mim mesma. A imperfeição que é essencial para me fazer saber quem eu sou e  o quanto sou única. E quero rir dela e fazê-la a parte mais bela de mim. Aquela parte que as pessoas queridas sentem falta quando estão com saudade da gente. Porque é ela que nos diferencia de todos os outros.

Esse ano quero treinar a imperfeição consciente. Em uma escola que me ajude a perceber em mim tudo o que não é igual nem ideal e que, com carinho, me ensine a ver a graça e a beleza de ter esses tesouros, essas pedras raras.

Em que escola posso treinar ser diferente?

Para Não Dizer Que Não Falei Apenas de Calabar

 

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Cartaz elaborado por Nícholas e Luiz Gustavo

 

Então eu te digo, sinceramente, que não sabia quem foi Calabar. E, muito menos, que nossos grandes Chico Buarque e Ruy Guerra escreveram, em 1973, em plena ditadura militar brasileira, uma peça de teatro musicada – Calabar: O Elogio da Traição – sobre ele.

Mas o que mais me motivou a comentar sobre esse personagem da nossa não tão longínqua história foi justamente o criativo cartaz que ilustra esse post e que se encontra espalhado por inúmeros pontos de ônibus da cidade de Campinas, onde moro, confeccionado por um grupo de adolescentes, todos meninos e, entre eles, meu filho Nícholas, para divulgar um trabalho de escola.

Eu, que tenho acompanhado meus quatro filhos durante a fase escolar de suas vidas, adoro me maravilhar com a capacidade desses jovens humanos de se envolver, de criar e de compartilhar o conhecimento.

Afinal, é assim que tem que ser, não é mesmo? Há de se aprender a pensar ao invés de receber conhecimentos prontos; há de se saber o que fazer com o conhecimento adquirido e há de se conseguir passar o conhecimento para frente, para mais alguém.

Esses garotos estão há semanas envolvidos em conhecer a fundo esse período da história do Brasil, a digeri-lo, mastigá-lo inteirinho, pedaço por pedaço, para, então, criar. Criar um objeto de valor, produto do conhecimento que assimilaram.

Hoje, afinal, fui testemunha de olhares brilhantes e sorrisos de cantos de bocas, transbordando o prazer e o orgulho sincero e feliz que se sente ao constatar que o resultado da obra ficou a altura de toda a dedicação.

E, novamente, confirmo a escolha que fiz há anos atrás: escola é lugar de fecundar mentes e acolher corações. Conteúdo se consegue encontrar em qualquer lugar, mas pensamento…  só brota em mentes libertas.

Amanhã, visite a página https://www.facebook.com/calabarmito.