A Pedra dos Amigos

Foto de Maria Fernanda
Foto de Maria Fernanda

 

Tenho um amigo que tem um sítio. Fica na sinuosa serra de Taubaté.

Um lugar onde se chega ao céu antes de morrer – palavras da mãe dele, que é uma pessoa muito especial.

De dia o céu é um azul profundo. De noite, é escuro como breu, com todas as estrelas do universo nos espiando feito pipoca derramada. Tem brisa, tem bruma, ter ar de verdade.

No sítio passa um rio e no meio do rio há uma pedra. A Pedra dos Amigos.

Nesse último final de semana, tive o privilégio de passar três dias lá e arrastar meus filhos comigo. Eles não queriam ir, mas eu fiz questão que fossem. Acabaram indo arrastados mesmo.

Conheceram São Luis do Paraitinga e a igreja que foi destruída pela força das águas, se reuniram em volta da lareira que teimava em não se acender, fizeram trilha na mata atlântica, tomaram banho de cachoeira, nadaram no rio e se encontraram na Pedra dos Amigos – carinhosamente denominada Ilha dos Caras pelos que os precederam. Sem energia elétrica. Sem ipad, ipod, iphone. Sem internet nem telefone.

Um final de semana bem diferente dos outros.

Eles adoraram!

É muito comum fazermos sempre as mesmas coisas, com as mesmas pessoas, do mesmo jeito.

Acreditar que ter uma vida social próspera significa sair todas as noites e almoçar fora todo final de semana é um pensamento muito medíocre.

Uma vida social digna de um ser humano feliz envolve desafios. Fazer coisas diferentes com pessoas diferentes ou coisas diferentes com as pessoas de sempre ou, até,  coisas de sempre, mas com pessoas diferentes.

Quando nos abrimos para o novo, exercitamos a nossa juventude.

Ficamos velhos quando insistimos em repetir o que já sabemos de cor. O mesmo comportamento empoeirado, a mesma ladainha desgastada de tanto uso, o mesmo pensamento embolorado.

A vida é um movimento contínuo e belo, no qual nada permanece igual. Quando estamos vivos, abrimos as janelas e deixamos o sol entrar. Arejamos.

Quem está parado já morreu.

 

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Carta à Menina Que Fui Antes de Me Casar

Foto de Tina Zani
Foto de Tina Zani

 

Você ainda não sabe, minha criança, mas um dia vai conhecer um moreno, alto, bonito e sensual.

Um cara legal, forte, divertido, inteligente, gostoso. Um atleta.

Ele vai te cativar com apenas um olhar e você vai se apaixonar.

Vocês vão se encontrar de manhã cedinho na Unicamp, vão sair juntos, rir, conversar, passear de moto.

Ele vai levar um pedaço de bolo de aniversário na sua casa, você vai lhe emprestar aquela blusa de lã PP que ele usa G, ele vai te trazer rosas roubadas, te pedir em namoro – e você não vai aceitar.

Vocês vão dar uns amassos à noite na casa dele, vão se encontrar toda segunda no Luz Del Fuego, vão bater papo ao cair da tarde no malhômetro. Você vai pendurar bombons com bilhetinhos de amor no portão dele, vai lhe contar piadinhas sem graça sobre elefantes – e ele vai rir mesmo assim.

A mãe dele vai achar que você é muito ‘saidinha’. O seu pai vai querer saber o que é que está rolando.

Vocês vão ficar grávidos. E vocês vão se casar.

E, por isso, minha menina, hoje eu te escrevo para te contar um segredo com toda a certeza de quem já viveu tudo o que você ainda vai viver: o casamento é uma escolha.

Não me refiro àquela escolha que fazemos uma vez… aquela, de casar com alguém no auge da nossa paixão juvenil.

Não. Falo da escolha que fazemos todos os dias, desde o famoso ‘sim, meu amor, eu quero, estou louca para ir morar com você’.

Casamento, minha flor, é a escolha diária de permanecer junto. Junto do outro, ainda que chova um dilúvio. Ou que não chova uma gota sequer. Ou, ainda, que tudo seja sempre tão igual que enjoe.

Não é possível permanecer casada se a escolha não acontecer todos os dias.

No dia em que você acordar e não estiver disposta a ficar junto, nada vai funcionar. Você vai querer escolher largar tudo e se mandar. E, se fizer isso, vai ficar com a impressão de que não deu certo, de que a vida é assim, que as pessoas se separam mesmo, que é isso, pronto e acabou. Literalmente.

Mas não, minha querida, não é isso. É preciso realmente querer que dê certo. Lá no fundo, dentro do peito, nas entranhas. Tem que estar impregnado na sua pele, nos seus pelos, nas suas unhas.

Porque a escolha será difícil. Difícil, de verdade. E não tem a ver com amor, que amor é outra coisa.

Tem a ver com escolha mesmo, pura e simples. E sincera.

Mas quando a escolha é assim, o amor acontece. Amor por você, pelo outro, pela história que construíram juntos, pelos frutos que geraram, pelas dificuldades que passaram, pelas alegrias e tristezas do caminho. E quanto mais você for capaz de escolher ficar, mais história vai construir, mais amor vai sentir, e mais vai querer continuar…

Sim, meu bem, podemos escolher partir, terminar, ir embora. Somos livres. Mas eu lhe peço, experimente escolher ficar. A cada manhã, todas as tardes e à noite também, dia após dia.

Escolha compreender as fraquezas do outro e as suas também. Escolha respeitar e valorizar a opinião que não é a sua, as preferências que não são as mesmas, a alimentação que não é igual, os desejos diferentes, os pequenos caprichos que todos temos.

E, principalmente, o mais difícil: escolha não fazer aquilo que incomoda, machuca ou magoa o outro, mesmo que para você não seja nada demais.

Porque, se seu amorzinho lhe pede para não fazer comentários sarcásticos em tom de brincadeira ou para não colocar as mãos molhadas na roupa dele, mas você continua repetindo o sarcasmo e a mão molhada e ignora seus pedidos pois acha que é tudo muito bobo, está, na verdade, dizendo a ele que não dá a mínima para o que lhe é importante. E isso dói. E, com o tempo, vai minando a vontade de ficar. E a escolha vai se tornando cada vez mais difícil.

Mas, quando escolhemos respeitar as manhas do outro, por mais infantis que pareçam, declaramos o nosso amor. Essa atitude vale mais do que mil palavras e infinitos ‘eu te amo’, pois, nesse caso, palavras são vento.

Você vai precisar aprender a fechar os olhos e abrir seu coração. Mas acredite em mim, meu amor, você é capaz.

E, embora haverá dias em que você e ele fraquejarão, a força das escolhas que já foram feitas vai carregá-los abraçadinhos e envolvê-los com tanta ternura que seus corpos, pensamentos e dúvidas se derreterão. E só o que vai ficar é a escolha de permanecer junto do seu amor.