Coração de Mãe de Filho Longe

Foto Tina Zani
Foto Tina Zani

 

Essa semana o Mau esteve fora.

Saí de casa apressada quase todos os dias, sempre vendo a caixinha de correios abarrotada e sem ter tempo pra pegar a correspondência.

Na quinta deu tempo… E sabe o que tinha lá, no meio de um monte de contas a pagar e outras coisitchas más? Três cartões postais do Lelê.

Meu coração ficou tão surpreso que transbordou pelos olhos.

Explico: o Lê está há um ano morando fora, na França, estudando. Foi um sonho que ele realizou com seu próprio empenho. E acabou de conseguir transferir definitivamente seu curso de Música da Unicamp para a Sorbonne. Ou seja, vai ficar mais um ano e se formar lá. Recentemente ele saiu de viagem para fazer um mochilão no sul da França e Itália, e foi desses lugares que ele enviou os postais.

Adorei suas palavras e as aventuras que ele descreveu, mas mais que isso, adorei por ele pensar em nós, por ele existir, por ser assim, tão lindo, carinhoso e especial.

Torço para que Deus continue ao seu lado, guiando, iluminando e lhe ajudando a compartilhar com o mundo e com a vida tudo de belo que ele tem em si.

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Fly Away

Arte de Sabrina Zani: a família completa.
Arte de Sabrina Zani: a família completa.

 

Hoje é domingo, pé de cachimbo.

Dia das mães aqui na minha casa e no meu coração. Nesse Brasil varonil e nesse mundão de Deus.

De manhã, café na cama com flor roubada, púrpura, colada com durex na caneca de cerâmica.

Uma preguiça gostosa até às 10h, dormindo de conchinha agarrados um no outro, quentes, aconchegados.

Bate-papo sussurrado, beijos no pescoço te contando a história do sonho que tive, cafuné boca com boca, carinho, calor, amor…

Presentinho.

Banho juntos, café da manhã em casa, sem pressa. Suco, fruta com mel, pão do Frango Assado com manteiga, café com meu favorito Coffe-Mate.

Dança de rosto colado no meio da cozinha ao som de Skyline Pigeon tocando no rádio da sala.

Almoço comprado em uma cantina.

Tudo de bom.

Podia ser diferente, mas foi assim.

Com você, comigo, com uma parte dos meus filhos queridos perto de mim e a outra parte dentro do meu coração.

Com a vida. Com amor.

Feliz dia das mães!

Semente do Amanhã

Foto de Tina Zani
Foto de Tina Zani

 

Sexta-feira a Sa completa 15 anos. Minha filhinha mais nova…

Quando fiquei grávida do Biel e fui morar com o Mau, eu sonhava em ter 5 filhos.

Adoro família grande. Adoro a casa cheia. Adoro ficar grávida, com aquele belo barrigão redondo. Adoro parir e amamentar.

Como é gostoso amamentar!

Eu sonhava, imaginava e fazia planos de ter todos os meus filhos de parto natural e amamentar todos eles, cuidar, maternar, abraçar, apertar.

Mas nem tudo saiu como eu planejava.

O Biel, por exemplo, veio ao mundo de cesariana, antecipando a data prevista para o seu nascimento porque estava sofrendo. Não mamou o meu leite, porque eu era muito jovem, inexperiente e me faltou a tão importante orientação adequada. E eu quis tanto tê-lo parido e amamentado…

Eu não sabia que na cesariana eu ficaria amarrada a uma cama, com os braços abertos e presos e uma cortina na frente da minha cara, tampando a visão do nascimento do meu próprio filho. Você sabia disso? Eu não. Foi um choque para mim. Não pude sequer tocá-lo com minhas mãos. Quando o recebi, já no quarto, ele estava limpo, lavado, todo esfregado, vestido e bem enrolado, como um charuto, um pacote.

A enfermeira ficou brava (!) comigo porque o desenrolei para conhecê-lo e tocar seus pezinhos.

Naquela época, eu era tão ingênua e ignorante do assunto parto e maternidade que me tornei vulnerável e manipulável.

Foi assim com o Biel e, por incrível que pareça, foi quase assim com a Sassá 8 anos depois. Eu já não era mais tão ingênua ou manipulável. Já somava 3 gestações, 3 partos (2 normais), 3 filhos saudáveis, 2 filhos amamentados.

Mas, mesmo assim, a Sabrina nasceu de cesariana. Desnecessária. Marcada pela médica e adiada por mim infinitas vezes, até o limite da paciência e do conforto dela: 40 semanas de gestação.

Estava pensando sobre isso hoje de manhã, enquanto caminhava no Taquaral. Talvez pela proximidade do aniversário da Sassá, talvez porque ela tenha me perguntado sobre esse assunto ontem à noite, enquanto nos preparávamos para dormir juntas. Mas o fato é que, se eu tivesse outro filho hoje em dia, teria-o em casa, no meio da sala, com a companhia das pessoas mais importantes da minha vida e a assistência de uma parteira. Eu seria a protagonista desse momento mágico, daria à luz com meu próprio esforço, minha grande força, meu suor, minha alma. Eu sou capaz. Conheço meu potencial.

Não tive os 5 filhos. Pari apenas 2 dos 4 que tive.  Amamentei 3.

Se pudesse tê-los novamente nos dias de hoje e com a experiência dos meus quase 45 anos de vida, sei que seria diferente. Mas eu tinha só 21 e não sabia de nada.

 

A Caixinha de Surpresas

Foto de Tina Zani
Foto de Tina Zani

 

Tem que olhar bem devagar. Cada pedacinho, todos os detalhes, para perceber que é uma caixinha diferente.

Pode ser que não sejamos capazes de ver a diferença olhando por fora. É uma caixinha quase comum.

 
Tamanho médio.
Textura suave.
Cantos arredondados.
Desenho sinuoso.
Cor clara.

 
Se estiver entre outras caixas maiores e mais espalhafatosas, talvez nem a vejamos.

 
Silenciosa.
Discreta.

 
É preciso olhar por dentro para descobrir os tesouros que ela guarda.
Em cada cantinho.
A cada centímetro.
Em todos os pedacinhos.

Tesouros de encantar a gente. De abraçar corações.

Tesouros de embrulhar a voz, enevoar a vista, acarinhar a pele, adoçar os ouvidos.
É lá dentro que estão as mais delicadas surpresas.
Uma plantinha brotando feliz em um vaso de sol. Um caracol passeando e cantando pelo jardim. Uma pombinha chocando, alegre, dois ovinhos no ninho, bem na ponta do galho da árvore. Três abelhas conversando na pétala da flor. Um caco de espelho refletindo o céu. O grilo e a grila namorando a criquilar. O vento balançando, bem mansinho, pequenos sinos de cristal. Uma gatinha branca se espreguiçando no degrau.

Faíscas de amor boiando no ar.