Quando O ‘Mesmo Assim’ É Essencial.

Por Tina Zani
Por Tina Zani

 

Esperar pelo momento perfeito me faz esperar para sempre.

Enquanto não me der conta de que o momento perfeito é o momento presente, não sairei do lugar. Entenda, estou falando isso para eu mesma ouvir.

A mania de achar que preciso aprender tudo o que não sei antes de começar, ter mais experiência, estudar mais o assunto, se assemelha ao casal que fica na espera de se mudar para uma casa maior para ter um filho; depois, espera a reforma da casa; depois, a poupança para a educação da criança; depois, a troca por um carro maior; depois… nunca vem o filho.

A mania da perfeição me deixa parada no lugar. Não consigo me mover. Não mexo uma palha por puro medo. Medo de fazer errado, de não ser boa o suficiente, de não fazer algo bom. Medo de arriscar.

Meu maior inimigo sou eu mesma. Eu que me observo, me comparo e me julgo. E não experimento.

Para sair de onde estou, tenho que fechar os ouvidos à autocrítica tão a flor da pele e me deixar dissolver por aí nas minhas tentativas de ser eu mesma. Sem me apegar aos defeitos. Simplesmente ser. Simplesmente fazer.

Se der errado na primeira vez, corrijo na segunda, e na terceira, e na quarta…

Se é importante e eu quero, o momento é esse. Mesmo que eu não me sinta totalmente pronta ou não tenha todas as ferramentas necessárias ou não domine completamente o assunto, preciso dar o primeiro passo e continuar caminhando. O primeiro passo é o início da jornada. Os passos seguintes são todos resultados daquele imediatamente anterior e podem ser corrigidos ao longo do caminho, conforme a experiência vai se somando.

Algumas áreas na minha vida ficaram especialmente empacadas por conta do desejo de fazê-las perfeitas (felizmente, isso não aconteceu com relação a ter filhos, rs).

Me conscientizar disso foi o primeiro passo para a liberdade. Mas ainda me pego ponderando sobre minha necessidade de acertar, embora hoje já consiga ir em frente algumas vezes mesmo assim (atente para o ‘algumas vezes’ e o ‘mesmo assim’).

E quando, apesar do medo, consigo abafar o fantasma da perfeição e deixo me acontecer imperfeita e tudo, a mágica acontece e uma chuva de purpurina me pinta de dourado.

Aproveite que você está lendo esse post e pense na sua vida e em tudo o que gostaria de fazer e ainda não começou. Por que? O que o faz não dar o primeiro passo? Quanto tempo ainda vai passar até chegar o momento perfeito? Eu o convido a se juntar a mim… vamos nadar contra a maré. Vamos fazer mesmo assim. Vamos nos dedicar a movimentar o mundo ao nosso redor, de mãos dadas.

A perfeição não existe.

 

 

 

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Em Busca da Imperfeição

Foto de Tina Zani
Foto de Tina Zani

 

Procuro uma escola que me ensine a ser imperfeita.

Ou melhor, uma escola que me ensine a não ser perfeita. Alguém conhece?

Também pode ser um curso, uma imersão  ou, melhor ainda, um pequeno grupo de pessoas queridas que se encontram todas as semanas para conversar, compartilhar e praticar a imperfeição. Tô falando sério, estou mesmo interessada.

Não falo de imperfeição no sentido de defeito, de falha ou de erro. Imperfeição, nesse caso, se relaciona com a qualidade humana que nos acompanha desde o nascimento. Somos perfeitos em nossa imperfeição. E tentamos desesperadamente reformá-la.

Queremos ser perfeitos em tudo e sofremos quando não conseguimos. E não conseguimos. Então sofremos. Queremos ter o comportamento perfeito, ser o cônjuge perfeito, ter amizades perfeitas. Queremos criar nossos filhos de forma perfeita e queremos que eles sejam perfeitos em seus comportamentos e escolhas. Queremos ter um visual maravilhoso, a roupa perfeita, o cabelo certo, a pele de bebê, o corpo de modelo, a vida perfeita. Também queremos que a casa esteja sempre em ordem, a cozinha sempre organizada, os cachorros muito bem comportados e que os gatos não soltem pelos por aí. Queremos que o nosso carro esteja sempre lavado por fora e limpo por dentro e que seja novo. Queremos muitas outras coisas perfeitas, mas o pior de tudo é que queremos não ter imperfeições.

Não gostamos de admitir que costumamos esquecer os nomes das pessoas (que deselegante!) e, às vezes, esquecemos até as pessoas; que não somos bons em fazer contas de cabeça; que não sabemos as funções de todos os botões da televisão que está ligada na Net e acoplada ao Play Station e linkada ao Pop Corn Hour (que absurdo!). É difícil de assumir quando fazemos uma bobagem, falamos uma besteira descabida, não sabemos como se escreve uma palavra, não entendemos uma piada, levamos susto toda vez que alguém entra em silêncio na sala ou temos um dia de mau humor.

Quero treinar minha imperfeição. Aquela imperfeição que tem um certo toque de ingenuidade, uma pitada de maluquice, com cheiro de entrega, gosto de aceitação, cor de oceano. Que transgride convenções, frustra expectativas alheias, surpreende a família, mas é inofensiva e não agride o outro e nem a mim mesma. A imperfeição que é essencial para me fazer saber quem eu sou e  o quanto sou única. E quero rir dela e fazê-la a parte mais bela de mim. Aquela parte que as pessoas queridas sentem falta quando estão com saudade da gente. Porque é ela que nos diferencia de todos os outros.

Esse ano quero treinar a imperfeição consciente. Em uma escola que me ajude a perceber em mim tudo o que não é igual nem ideal e que, com carinho, me ensine a ver a graça e a beleza de ter esses tesouros, essas pedras raras.

Em que escola posso treinar ser diferente?

A Perfeição é Muito Chata.

Quem foi o louco que disse que temos que ser perfeitos?

Perseguir a perfeição é o mesmo que correr, correr, correr e morrer na praia. Na praia!! Bem na hora em que tocamos os pés na areia fofa e sentimos o aroma do imenso oceano a nos chamar para um refrescante abraço.

Por que alguém iria querer uma coisa dessas?

A perfeição aprisiona e tolhe. Mata a criatividade e afoga a espontaneidade. Em nome do perfeito ninguém aprecia o simples, o bom, o gostoso, o autêntico.

Em nome do perfeito, somos forçados e esforçados. Vivemos de aparências, sobrevivemos de desespero.

Ser perfeito acaba conosco.

O escritor, quando lança um trabalho perfeito, empaca com medo de não conseguir o mesmo sucesso no próximo livro. O artista se apega à perfeição e beleza de sua obra e trava, inseguro de sua capacidade de produzir outro trabalho à altura do anterior.

O perfeito diz respeito ao outro; o imperfeito diz respeito a nós mesmos. O perfeito satisfaz expectativas; o imperfeito surpreende e revoga as expectativas. O perfeito é sempre o esperado; o imperfeito é a surpresa, que delícia!

Eu já quis ser perfeita e nessa tentativa só encontrei chatice.

Por isso, decretei que vou ser imperfeita. Meu objetivo agora é destruir as grades que me aprisionam à perfeição e abrir as asas para voar… cansar, cair, perder umas penas, trombar com uma árvore florida, escolher o galho errado, cantar desafinado e ser feliz.

De hoje em diante eu sou Tina: errada, imperfeita e fora do lugar. Pronto.

Ahhh, vai ser tão bom!

Casamento perfeito, bumbum perfeito, filhos perfeitos, unhas perfeitas, vida perfeita, dia perfeito, amiga perfeita, pais perfeitos… Não. C’est fini pour moi.

O segredo é não esperar autoperfeição e sim autoconhecimento: conhecer e desenvolver nossas qualidades, reconhecer e diminuir nossas dificuldades, ampliar nossos limites, expandir nossos horizontes, fortalecer nossas capacidades.

Você também foi engolido pela busca frenética do ser perfeito? Então aqui fica meu convite: vamos juntos desaprender a perfeição?