O Dia em Que Queimei um Sonho Meu

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Fotos de Tina Zani

Foi ontem. E hoje também.

Porque eram muitos… 1100 cartões de visita, com meu nome escrito, que não tive tempo de usar. Porque quando ficaram prontos e chegaram até minhas mãos, eu já tinha saído.

Não porque tinha planejado sair. Por susto. Por puro susto.

1100 pequenos pedaços de papel, bonitos, lindos, bem feitos, caros, com meu nome escrito… Demoraram dois dias para virar cinzas. Demoraram 6 meses para sair de mim.

Foi um sonho, uma ilusão. Daqueles que a gente vive de verdade, se entrega, se enxerga no futuro. Sonho do tipo que se quer arrastar todo mundo junto pra ele, se mistura, se funde, se liquefaz.

Todo mundo tem um sonho secreto, que alimenta escondidinho, que não conta pra ninguém, que torce pra virar realidade um dia.

O meu sonho queimado era público, conhecido de todos e de muitos, espalhado, esparramado por onde passei, a céu aberto, em carne viva, sentido em todos os meus poros. Era um sonho que contei e mostrei. Eu acreditei.

Abandoná-lo no meio do caminho partiu meu coração. Deixá-lo para trás secou minha garganta, oprimiu meus pulmões, obstruiu minhas narinas, sufocou minha voz e derramou pelos meus olhos… dias sem fim.

Foi um parto, de emergência. Um aborto não espontâneo de um bebê sem futuro. Por necessidade. Para salvar minha vida.

Doeu. Cortou. Rasgou. Sangrou.

Expôs minha raiva, que eu nem sabia que tinha. Me obrigou a encarar meu lado mais obscuro de fera ferida. Encolhida mostrando as garras, os dentes, a saliva. A alma explodindo pelos olhos de medo. O corpo todo sacudindo e tremendo, com frio e calor ao mesmo tempo. Suor. Lágrimas.

Um sonho que sonhei, mas que não era para mim. Era um sonho para outro alguém, para muitos outros alguéns, mas não era para mim.

E, então, eu o queimei. Joguei na lareira e taquei fogo, pedacinho por pedacinho, até o fim. Cauterizei a ferida.

Desse sonho queimado não guardei nem as cinzas. Só a certeza de que era um sonho bonito, mas no coração errado.

Já acabou…  Agora está tudo bem.

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