A Roda da Vida

Foto de Tina Zani
Foto de Tina Zani

 

Final de semana passado aprendi uma coisa nova: um novo olhar para a rotina.

Costumamos achar que a rotina é chata, cansativa e massante e vivemos procurando maneiras de fugir dela para deixar a vida mais interessante, cheia de diversão, aventuras e novidades.

Tiramos férias, marcamos viagens, abrimos um vinho em uma segunda à noite, pegamos um cineminha em horário comercial,  encontramos os amigos pra comer bacalhau no almoço de sexta, dormimos até mais tarde na quinta de manhã… tudo pra escapar da rotina.

Fazer as mesmas coisas todos os dia pode ser mesmo bem cansativo… se as coisas que fazemos não nos dão prazer.

A palavra rotina se refere a tudo o que precisa acontecer em ciclos repetitivos.

A natureza é assim. Na natureza, o sol se levanta e se põe todos os dias; a lua muda de cheia pra minguante pra nova pra crescente pra cheia de novo a cada sete dias; as estações se repetem a cada ano, assim como as horas, os dias, as semanas, os meses, os anos.

Nosso corpo é assim também. Cada orgão, cada célula tem sua rotina específica e perfeita: o coração só é saudável quando bate dentro de um ritmo rotineiro; qualquer coisa diferente vira arritmia, taquicardia, bradicardia.

A cada minuto, um certo número de batimentos cardíacos; a cada 7 anos, todas as células renovadas por completo; a cada mês, uma nova menstruação; a cada refeição, um processo digestivo.

A rotina é a roda que move a vida. É essencial para nos sentirmos bem, ainda que ela seja de constantes mudanças.

A questão é que ela deve ser prazerosa.

As atividades que se repetem no nosso dia a dia, quando nos trazem satisfação, bem estar e prazer, não nos deixam entediados e não nos levam a procurar fugas e escapes. Elas simplesmente nos completam.

Uma rotina chata e desmotivante é um sinal de que algo precisa mudar para que a roda não empaque e a vida continue seu movimento macio e sinuoso em direção ao infinito.

 

Fim De Férias

Foto de Sabrina Zani
Foto de Sabrina Zani

 

Essa semana acabam as férias escolares aqui em casa.

Na quinta todo mundo recomeça as aulas e, pela primeira vez em 14 anos, vou ter todos (isto é, os dois que ainda moram aqui em casa) estudando no mesmo horário, de manhã. Vai ser uma bela novidade.

Embora eu tenha sonhado com isso há bastante tempo, com certeza vamos levar alguns dias para nos adaptar e acostumar com a nova rotina.

Minha filha, que sempre estudou a tarde, vai ter que aprender a cair da cama às 6h da manhã e estar pronta até as 7h.

Eu adoro a ideia de acordar cedo. Adoro o ar e o silêncio da manhã bem cedinho. Adoro a sensação de aproveitar o dia que tenho quando me levanto junto com o sol. Tenho a impressão que tudo rende mais. Me sinto mais feliz e bem disposta. O dia fica longo e parece até que é infinito. Gostaria de acordar todos os dias 5 min antes do sol nascer. Fico super empolgada com todas as inúmeras possibilidades de se ter um dia compriiiiido.

Mas preciso te contar um segredo… Ai, ai, ai… Que difícil que é reacostumar a acordar cedo.

Hoje, por exemplo. Liguei meu alarme para as 6h15, assim teria tempo de me levantar sem pressa, tomar meu café da manhã tranquila, sair para correr, tomar banho e ficar pronta antes do meu compromisso às 10h. Não levantei.

O alarme tocou de novo às 6h30. Também não levantei.

Acabei saindo da cama às 8h15 e, lógico, não fui correr.

Chegamos de viagem no sábado, vindos de uma semana inteira de preguiça, preguiça, preguiça, praia, sombra e água fresca. Levantava depois das 8h todos os dias. Alguns dias mais, outros menos, mas todos depois das 8h. E achei que fosse conseguir ‘pegar no tranco’ logo que chegasse em casa.

Não consegui, não rolou. Mas, lá no fundo, já imaginava que não ia dar certo assim, de supetão. Esqueci de uma coisa muito importante.

Porque, apesar de amar a ideia de madrugar e todas as possibilidades de ter um dia mais longo e de me sentir bem melhor, não quero abrir mão de ficar mais um pouco na cama enquanto ainda posso. Então, acordar cedo fica parecendo um sacrifício, quando poderia ser uma delícia.

Preciso de muita força de vontade para realizar um sacrifício. E um sacrifício será sempre um sacrifício, nunca uma delícia.

Por isso prefiro as mudanças que acontecem lentamente, gradualmente, quase sem perceber, bem devagarinho. Devagar eu vou longe. E, quando me dou conta, já cheguei aonde queria e fui mais além.

Quando começo pequeno, com um passo de cada vez, não me sobrecarrego, não exijo demais de mim mesma e, normalmente, consigo cumprir o que me propus. Isso me dá uma deliciosa sensação de alegria e vontade de continuar, de me superar.

Indo assim, de pouquinho em pouquinho, nada parece difícil, mesmo que eu esteja caminhando para fora da minha zona de conforto – mas só um tico de cada vez. Com o tempo, o que era para ser uma grande transformação, acaba se incorporando ao meu dia-a-dia com pequenos passos em uma escada bem suave.

As mudanças que faço lenta e gradualmente vêm para ficar e passam a fazer parte da minha vida muito mais do que os grandes passos que quero dar de repente. Esses são fogo de palha. Queimam rápido e se apagam, porque parecem grandes demais e assustam, demandando um sacrifício enorme.

Um bom exemplo é o que aconteceu comigo hoje.

Se, ao invés de já, de cara, querer me levantar as 6h15 para correr e dar conta de todo o resto, eu tivesse me proposto a sair da cama 20 ou 30 minutos mais cedo do que ontem, certamente não teria sido tão difícil e eu teria conseguido. E, se seguisse assim, me levantando todos os dias 20 a 30 min mais cedo que o dia anterior, em 4 a 6 dias já conseguiria chegar no horário das 6h15, quase sem esforço.

Gosto de usar essa técnica para quase tudo na minha vida. Para correr, para criar novos hábitos, para formar novas rotinas, para guardar dinheiro, para incluir novos exercícios… Tudo o que faço assim tem um enorme potencial para dar certo. E sempre que dá certo, me sinto feliz e quero mais. Isso me mantém caminhando sempre para frente.

Mas… às vezes me esqueço e faço como hoje. Está tudo bem também.

As falhas fazem parte de qualquer processo de crescimento e aperfeiçoamento. É com elas que aprendo a lição mais importante: continuar. Adaptar e continuar. Mudar aqui, mudar ali e continuar. Rever o plano e continuar. Redirecionar e continuar. Continuar sempre.

Mudando e melhorando só um pouquinho de cada vez, sem parar, ao final de alguns meses terei colecionado algumas maravilhas.

Como você faz pequenas e grandes mudanças em sua vida? Já experimentou começar aos pouquinhos, como eu?

 

 

 

 

A Magia de Um Dia Qualquer

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Foto de Tina Zani

 

Às vezes me pego pensando… Como passamos tantos dias de nossas vidas sem perceber os momentos preciosos que vivemos?

Olhamos, mas não vemos. Ouvimos, mas não escutamos. Tocamos, mas não sentimos. Falamos, mas não dizemos. Movemo-nos, mas não nos envolvemos. Abraçamos, mas só com os braços. Beijamos, mas só com os lábios. Sorrimos, mas só com os dentes.

As coisas ficam todas pela metade. Não ficam sem fazer; são feitas apenas com uma parte de nós, a parte superficial, sem importância, cheia de ar.

Me pego olhando para trás e vendo pequenos vácuos em minha vida. Eu sei que os vivi, cada dia, cada vácuo, mas não consigo me encontrar neles. E fico me perguntando onde eu estava? Como pude fazer isso comigo mesma? Roubar de mim o direito de ver, escutar, sentir, dizer, me envolver em abraços de corpo inteiro, beijos doces, sorrisos encantadores…

Ao redor de cada vácuo estão períodos maravilhosos e férteis, nos quais os dias foram longos, especiais, ainda que ordinários. Nesses dias, como agora, ouvi o sabiá solitário na madrugada, contemplei deitada na rede a lua cheia iluminando a noite, senti o calor morno do sol acariciando minha pele, me espreguicei antes de levantar e tomei um banho morno antes de deitar. Nesses dias, como agora, dei abraços verdadeiros de corpo inteiro e sorri com a boca, mas também com os olhos, os cabelos, o peito e o coração.

Nada mudou na rotina desses dias férteis. Foram dias comuns, mas nos quais eu mergulhei, feito estrela do mar no silêncio profundo do oceano, e ouvi o som da vida pulsando em minhas veias.

Nós, crianças crescidas, às vezes esquecemos toda a magia que está contida em um dia qualquer.

Mas há algumas pequenas atitudes que podem nos ajudar a despertar para a beleza da vida, da amizade, do amor, da convivência. Cada uma dessas ideias tem o poder de nos trazer uma alegria e bem estar profundos sem tomar nem um segundo de nosso precioso tempo.

Experimente… espreguiçar todas as manhãs, sentindo cada pedacinho do seu corpo.

Se dorme acompanhado, troque um sorriso, um carinho, um beijinho antes de sair da cama.

Ao abrir a janela do quarto, olhe para o céu, sinta a temperatura do ar, perceba a paisagem à sua frente, respire.

Se tem um bichinho de estimação, faça-lhe um pequeno agrado logo que o encontrar pela manhã.

Se pratica um esporte ao ar livre, deixe-se envolver pelo ambiente, perceba os sons, os cheiros, o sol, a chuva, a brisa; veja as árvores, as flores, sinta o solo.

Se tem filhos, abrace-os com o corpo todo, apertado, demorado, com carinho, com o coração, todos os dias.

Se tem um amor, olhe nos olhos para conversar, assista a filmes abraçadinhos, ande de mãos dadas, escute com atenção, compartilhe emoções, pensamentos, sentimentos, comece a noite dormindo de conchinha.

Se tem uma rede em casa, deite-se e leia um bom livro no final de semana, ou nas noites de luar.

Tire os sapatos depois do trabalho e ande descalço, dentro e fora de casa.

Se tem pais, ligue de manhã, para desejar-lhes um bom dia.

E o mais importante, lembre sempre que a vida é feita de dias comuns, vividos um a um.