Olhos nos Olhos – Posso Ver O Que Você Diz?

 

O que você é ecoa em meus ouvidos com tanta força que não consigo ouvir o que você diz. ~Emmerson

 

Quero Ver O Que Você Diz.

Olho para a boca que fala, para a paisagem que está atrás, para a pintinha na sua bochecha, para a marca na sua testa, para seu nariz de flechinha, para o meu umbigo, para qualquer coisa, mas não ouso olhar para os seus olhos, porque sei que eles são o espelho da alma, da minha alma.

E se os meus olhos encontrarem os seus enquanto falamos?

Você vai me conhecer de verdade, vai me desnudar em público, descobrir meus sentimentos engraçados, meus receios e medos bobos, minha inquietude infantil, minhas ideias loucas, emaranhadas, coloridas, saborosas, enroladas feito caracol, leves feito borboletas.

E se meus olhos, ainda assim, insistirem nos seus?

Eu vou entender suas dúvidas, vislumbrar seus sonhos, apreciar sua beleza encantadora, ofuscar minha vista e esquecer meus problemas. Vou me perder em você. Não vou lembrar o que estava falando.

E depois?

Depois vou andar por aí com um pouco de você em mim. E um pouco de mim em você. E a vida vai ser mais bela porque nos encontramos e nos olhamos, ainda que falamos.

Olhos Nos Olhos, Para Quê?

Pense comigo.

Eu não sou alta.

Então, na esmagadora maioria dos casos, para olhar nos olhos de alguém tenho que ficar em uma posição geometricamente inferior: cabeça tombada para trás a mirar algo que está acima de mim, mais ao alto e olhando para baixo.

Exponho minha garganta e meu peito aberto. Conecto-me com o céu e as estrelas.

Meus pés, no chão, ficam esquecidos, pequeninos, tão longe de mim. Meu corpo… Que corpo? Se desfaz e desaparece sob meus olhos mergulhados em outros olhos. Entregues.

Quando olho nos olhos de alguém, o mundo pára e só a vida flui, calor morno que embala a certeza do que é mais sagrado.

Mas e se eu fosse bem alta e, para ver outros olhos, tivesse que olhar para baixo?

Bem, nesse caso eu desceria do meu altar e me curvaria à outra alma. Baixaria minha cabeça, silenciaria meu ego e ouviria melhor, com meu coração tão próximo dos lábios da alma que me olha lá de baixo.

E se, numa hipótese remota, fossemos todos do mesmo tamanho, a combustão que faiscaria do encantamento de olhar nos olhos sempre seria contagiante. Seríamos capazes de entender o outro com mais sabedoria, identificação, igualdade.

Mas a vida é sábia e criou as diferenças para que uns possam se elevar às estrelas, enquanto outros abrem mão do trono, em uma fração de segundos que parece infinita – o momento em que os olhares se encontram.

Tem gente que fala, fala, fala, fala muito. Bonito, mas vazio.

Para falar de verdade, o outro tem que ver o que você diz. Nas suas atitudes, nos seus trejeitos, no cheiro que você emana, nos seus gestos, na entonação da sua voz, no viço da sua pele, na sua expressão, no suor que eventualmente brota dos seus poros e no brilho dos seus olhos.

Quando falamos com autenticidade e propriedade, falamos com o corpo todo. Falamos com a alma. E com a vida toda, também. É impossível não ver o que falamos desse jeito e quem tem olhos, pode ver.

Olhe nos olhos. Veja o que vai na alma de mais alguém.

Olhe nos olhos todos os dias. De um amigo, de um amor, de um desconhecido.

Desnude-se. Deixe-se conhecer. Vislumbre outros sonhos. Conheça outros saberes. Dê um pouco de você e aceite um pedacinho de mais alguém.

Olhos nos olhos. Sempre.